quarta-feira, 6 de agosto de 2014

encontrando beleza longe dos espelhos



Ainda lembro bem da surpresa de descobrir que o que eu achava bonito não era bonito para todo mundo. Eu tinha entre cinco e seis anos e brincava no girador de assentos coloridos do parquinho da escola - hoje, pouco menos de quinze anos depois, a mera imaginação de um girador já é suficiente para me provocar naúseas. Junto a algumas coleguinhas, discutia qual assento do brinquedo deveríamos ocupar, tendo as suas cores como nosso critério de escolha. Certa de que o assento laranja era o mais bonito e a opção mais sábia, fiquei estarrecida ao notar que as minhas amigas discordavam, pensando que os assentos azuis, verdes ou vermelhos eram melhores! Meu rosto ficou vermelho de raiva e indignação! Como elas não percebiam que o laranja era mais bonito? A discussão foi ficando cada vez mais acalorada e uma intervenção adulta foi necessária. Com uma paciência admirável, a professora explicou ao grupo de garotinhas indignadas que o que era bonito para uma, poderia não ser para outra. "Gosto não se discute, se respeita", disse a professora para o grupo que a observava boquiaberto.

Hoje sei que o conselho da professora foi uma das premissas mais sábias que já ouvi na vida. Conforme eu fui crescendo e amadurecendo minhas opiniões, meu ponto de vista e minha visão de mundo, fui notando que o conselho da professora da pré-escola foi um dos mais sábios que já recebi. Percebo em muitos contextos, embora adultas, as pessoas comportam-se como um grupo de crianças mimadas discutindo.
Narciso só acha bonito o que é espelho, já diz o ditado popular. O homem que apaixonou-se pelo próprio reflexo continua deixando marcas na forma de as pessoas se relacionarem na modernidade com mais força do que nunca. O trágico fim do herói auto-admirador não é suficiente para acabar com a tendência humana de considerar suas próprias ideias como superiores.
Tanto no contexto da fé cristã quanto em outros espaços, tenho visto que as pessoas estão cada vez mais fortes, mais seguras, mais completas e irredutíveis. A cada momento surgem mais verdades absolutas que são defendidas por unhas e dentes por seus “donos”. E nesse frenesi absurdo por garantir o status de verdade absoluta às nossas próprias ideias, a gente perde a graça e a leveza de achar beleza no outro, no diferente, no que é estranho a nós.


Aos amigos e leitores: a alteridade é mais do que uma palavra latina que define o estado e a qualidade do que é diferente. Ela traduz a concepção de que eu só existo em conjunto com o outro, o que na minha opinião é uma das mais belas verdades. Para que eu possa existir, é essencial que eu compreenda o outro em suas particularidades, tendo sempre em mente que é a nossa diferença que garante a nossa realização enquanto sujeitos. Viver e pensar de forma que haja espaço para a alteridade é um desafio que vale a pena!


Aos amigos e irmãos de fé: é em Cristo que todas as coisas nos céus, na terra e embaixo da terra encontram seu propósito e seu significado (Colossenses 1:15-18). Em uma das minhas epístolas preferidas, o apóstolo Paulo diz que somos um exemplo do que a natureza reconciliadora da obra de sua obra foi capaz de fazer: Cristo nos trouxe para o lado de Deus e acertou a vida de vocês, deixando-a íntegra e santa em sua presença (Cl 1:21-23). Um pouco mais adiante, o apóstolo alerta a todos os seus leitores a permanecerem atentos, resistindo à tendência de superdimensionarem questões que embora travestidas de santidade e sabedoria, desviam nossos olhos da Verdade de Cristo. A centralidade da obra da cruz no nosso cotidiano garante a certeza de que as listas de regras não são mais úteis e é entre os braços do nosso Senhor que encontramos as verdades que procuramos. Pois bem, penso que destruir o poder do pecado e oferecer a possibilidade de reconciliação direta com Cristo é um presente maravilhoso demais para desperdiçar perdendo tempo com discussões vãs e regras tolas, não?

quarta-feira, 7 de maio de 2014

do porquê os amores feinhos são mais desejáveis do que os de cinema

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,não teologa mais.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Adélia Prado 
Fiquei pensando em quanto tempo a gente perde querendo um amor daqueles de cinema. Um amor belíssimo, com cavalos brancos, fogos de artifício e vestido de baile. Hollywood que me perdoe, mas creio que o amor que mais se aproxima daquele que é descrito na Bíblia é o que a Adélia Prado chama de “amor feinho”. É o que não se enche de idealizações, mas de realidade, que não tem ilusão, mas esperança. Não perde tempo com expectativas individuais, todavia, cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é.
Não raro, vejo amigas cristãs perdidas em expectativas ultrarromânticas, frustradas com seu estado atual e espremendo a realidade em um movimento cansativo e egoísta para atender aos seus próprios desejos. Ainda é forte entre nós a ideia de que a função do amor é satisfazer nossas expectativas e realizar os nossos sonhos!
Observando cristãs mais maduras, percebo que o amor real nasce de um coração que encontrou o centro de sua realização fora de si mesmo. É esse o amor que oferece a verdadeira companhia, palavra que deriva do latim vulgar companìa, formada de cum "com" + panis "pão" : o amor que compartilha o Pão, que calou as próprias exigências e aprendeu a alegria de oferecer a si mesmo.
Esse é um exercício constante e diário: o de não deixar que o amor que há em nós se contamine por interesse próprio ou por uma fé corrompida. É uma revelação essencial para aquelas que buscam ser como a mulher que merece admiração, descrita em Provérbios 31. Em um mundo sexualizado e estético, nada mais subversivo e necessário do que aprender a cultivar a beleza do coração, que se traduz em um espírito manso e gentil, aberto a ouvir, a curar e a abençoar.
O amor que nasce em um coração egoísta é incompleto e inflexível. Impressiona, mas não descansa. O amor que verdadeiramente realizará seus sonhos é beleza transcendente. Tomando emprestado o verso de Adélia Prado, o amor feinho nunca fica velho. É do coração que está disposto a oferecer-se que nasce o amor que é cheio de gentileza, de bom senso, de misericórdia e é pra lá de abençoado. Não muda com o tempo instável e não tem duas caras.
E só enquanto estamos dispostas a experimentar dessa dimensão do amor que transborda na vida de todos ao redor (1 Tes. 3:11) é que ganhamos a disciplina e força de caráter necessária para sermos mulheres, esposas e mães segundo o que Deus planejou.

Já foi dito que quem tem posto a mão no arado não olha mais para trás, do contrário, mantém os olhos fitos em Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé. Meu desejo é que você, querida leitora, aprenda a fixar seus olhos, coração e expectativas naquele que é a maior fonte de Amor do universo. Desta forma, a natureza outrocêntrica do amor se revelará a você em uma aventura deliciosa que também é um aprendizado instigante. E enquanto outras meninas dizem que querem um amor de cinema, você vai poder sorrir e dizer que quer mesmo um amor feinho.

domingo, 21 de julho de 2013

Estetoscópio

"And we we'll use the words we know to tell You what an awesome God you are
But words are not enough to tell of our love
So, listen to our hearts..." Casting Crowns

Poeta: Aquele que sonha ou tem caráter idealista.
Profeta: Anunciador ou intérprete de uma mensagem divina.
Espanto: Pasmo, admiração.
Encanto: Que causa atração, maravilha ou imenso prazer.

Só eu encontrei uma ligação incrível entre os significados?


Domingo à tarde. Música alta e vários pensamentos escorrendo pela mente e pelo coração.

Sabe aquela alegria, aquela paz de espírito que é tão grande que chega a alargar o coração? Sinto-me o autor do Salmo 45, com o "coração rompendo as próprias barreiras e transbordando beleza e bondade. O derramo num poema para o Rei, fazendo um rio de palavras..." (A Mensagem).

O amor é o mais precioso bem que Deus nos concede. É um eco de sua própria natureza, que ressoa pelas mais endurecidas partes de nosso ser. O amor liberta. O amor transforma. O amor é o que tira nossa vida da correria, da culpa, da cobrança e da miséria do cotidiano e faz dela nova, ressurreta. 

Estava ouvindo essa música. Sabe aquelas músicas que derrubam os diques que domesticavam seu coração? Aí aquele anseio de infinito, de eternidade, aquela saudade, desabam e alagam tudo? Então.

Sou um desastre cósmico, uma grande equação que não funciona. Minha alegria nesses dias é saber que pertenço àquele que é o Rei dos Reis, e ele costuma ser persistente e fiel!

Quero aprender o medo alegre de fazer calar todas as vozes. 

O Amor é nosso refúgio. Refúgio não é um lugar erguido automaticamente ao seu redor. Refúgio é um lugar aonde você vai. Refugie-se no Amor, na Graça, na Verdade e na Justiça que eu sei que você sabe onde encontrar. 

Tudo o que se levanta contrário a Verdade é mentira. Assim como eu estou tentando fazer, meu querido leitor, seja rápido e jogue toda a mentira fora. Já disse uma amiga querida: tem alguém que está muito interessado em fazer você acreditar em mentiras e carregar cargas, culpas e auto-condenação... Né?

sexta-feira, 22 de março de 2013

sobre a Noite e como (não) enfrentá-la

Era noite lá fora. E aqui dentro, também. Eu sabia que era noite, porque não importava o tanto que eu tentasse fazer com que as coisas se iluminassem, elas nunca deixavam de ser escuras. No máximo, elas clareavam sob um único ângulo, de uma forma amarelada, fria, artificial. Era noite porque estava frio e um vento assustador entrava pela janela. Eu podia tentar fechá-la com toda a força, podia tentar cobri-la, mas o vento era tão insistente que ignorava todos os meus esforços.
Era noite, mas não era qualquer noite. Era uma daquelas noites difíceis. Difíceis porque embora o cansaço tomasse conta de mim, eu não conseguia dormir. Não era um cansaço sereno, tranquilo. Era um cansaço cheio de dúvidas, de medo, de culpa. Era um cansaço que não se permitia descansar. Era um cansaço que reverberava desânimo.
Eu estava sozinha. Não que ninguém estivesse próximo a mim, não entenda assim. Na verdade, havia várias pessoas a minha volta. E não só fisicamente: muitas delas se preocupavam comigo e tentavam o máximo possível manter o coração bem pertinho. Mas as minhas portas estavam todas trancadas.
O telefone tocava sem parar. Tocava tanto o meu telefone celular quanto também aquele que a gente aprendeu na escolinha dominical que é “o telefone do céu”. Em ambos, eu era monossilábica. O segundo era sempre mais insistente: discava uma, duas, ou três vezes. E se eu não atendesse, ele tentava de novo.
Porém, em um dia no meio dessa noite de meses, o telefone-do-céu ligou. Eu nunca tinha aprendido que ele funcionava sem ser acionado, mas parece que é insistente e proativo, esse Telefonista. Ele ia falar comigo naquela grande noite, mesmo que morresse tentando. Ou melhor: Ele havia morrido para isso.
Uma vez, as lágrimas tanto sufocavam a minha voz que Ele mal entendia o que eu falava. Aí, Ele não conseguiu mais esperar. Saiu de onde estava, e veio bater em minha porta fechada. Suportou o escuro da noite, o perigo das ruas, o desconforto do sereno.
Não fui uma anfitriã educada. Já havia me vestido, me banhado, lavado meus pés. Não queria ter que ir até a porta, não queria pensar no que ia dizer. Muitas coisas passavam pelo meu coração naquela hora, e eu teria de fazer um esforço de filtração muito grande para não falar nada que fosse ofensivo. E vocês sabem, no muito pensar há cansaço. E cansaço eu já tinha de sobra. Demorei muito para atender à porta.
Mas, ah, aquele homem... Ele não estava disposto a desistir tão cedo. Sem permitir que Ele entrasse, fui falar com Ele. E a primeira palavra que Ele disse fez com que meu coração derretesse e minhas pernas balançassem. Conversamos por mais de uma hora. Ele foi aos poucos entrando nos meus espaços mais sombrios, nos meus cantinhos mais ocultos. Em pouco tempo, me vi em seus braços, enquanto Ele me fazia dormir. Aninhada no colo do homem que era também Leão e Cordeiro, sentia que os monstros de quem eu tinha medo calavam-se.
Ainda é noite. Ainda está frio. Mas Ele ainda está aqui. Eu achava que Ele nunca mais me olharia da mesma forma depois de adentrar os muros que eu tanto protegia. Contudo, Ele ainda diz que me ama com amor insuperável e insubstituível. Ele prometeu que nunca iria embora. Eu nem sempre acredito nisso. Ainda ouço os monstros gritarem, sinto o frio entrar pela janela. A diferença é que agora, sempre que eu começo a entrar em pânico, sinto os dedos dEle alisarem meus cabelos e seus lábios fazerem “shhhhh!”. E um silêncio aconchegante toma conta de mim, enquanto o vento gelado que me paralisava vai aos poucos derretendo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Dia Internacional da Menina

Hoje, fui lembrada pela querida Maira Begalli que hoje é dia da menina, pela primeira vez.

Você pode se perguntar: qual a utilidade dessa data?

Estamos às vésperas do Dia da Criança, data que, minha mãe dizia, só serve para aquecer o comércio antes do Natal.

Já tivemos o Dia da Mulher, em 8 de Março, data lembrada com desdém por muitos, apesar de sua história ter sido escrita com o sangue das trabalhadoras exploradas, das mulheres violadas.

Mas o "ser menina" traz uma carga muito diferente do "ser mulher". Menina tem que aprender.

Tem que aprender que não somos todos iguais perante a lei, embora digam ao contrário. Tem que aprender que príncipes encantados são coisa de faz-de-conta. Mas o Lobo Mau existe, este sim, em muitos lugares. E algumas, aprendem rápido.

Menina tem que aprender a ser esperta. Tem que aprender a prestar atenção. Tem que aprender que o perigo pode estar em vários lugares. E se ele alcançar você, a culpa é sua. 

Longe dos clichês a que este dia possa levar, não vou parabenizar ninguém aqui por ser/ter sido menina. Lembremos do olhar da prostituta indiana de cinco anos que mudou minha vida, embora eu só tenha visto por fotografia. Lembremos das meninas que narraram sua vida à jornalista Eliane Trindade em Meninas da Esquina, que foram forçadas a virar mulheres rápido demais.

Lembremos das meninas que conheci no Haiti. Da menina que era pouco mais que um bebê e me perguntou onde estava minha mamãe, para depois dizer que a sua, embora esperasse-se eterna, não existia mais. 

Lembremos das personagens de romances nacionais e internacionais, que inspiram tantas meninas ao redor do mundo. Que como em uma catarse, acendem dentro delas a esperança de ser Cinderela, de ser acordadas da dor pelo beijo de alguém que a ama. Lembremos de Dora, Capitães da Areia, Jorge Amado, que só viveu como mulher por algumas horas, na única noite da sua vida em que havia "paz, grande paz de seus olhos". Lembremos de Pollyanna, de Eleanor H. Potter, cujas circunstâncias da vida a levaram a sempre buscar ver o não tão visível lado bom das coisas.

Lembremos da menina molestada pelo pai desde os onze anos de idade cujo diário foi publicado pela jornalista chinesa Xinran, no (excelente!) livro Boas Mulheres da China, que dizia não conseguir lavar a dor. Que lamentava o brilho perdido de seus olhos, que não demonstravam mais o brilho e a graça de uma menina. Cujas orelhas, fracas pela constante vigilância, não aguentavam mais nem um par de óculos. Que aprendeu cedo a não acreditar nos livros que dizem que ser mulher é melhor que ser homem.

Lembremos, ainda, das meninas entre os 43% das mulheres que são vítimas de violência doméstica. Das meninas que compõe a estatística de uma violência sexual no Brasil a cada 12 segundos. Das meninas que foram espancadas, estupradas e mortas instantaneamente. Das meninas que ainda são espancadas, estupradas e mortas pouco a pouco. Das meninas que não são estatísticas ou números, mas que têm nome, sobrenome e sonhos. Das meninas que nós já vimos, porém, sem nunca olhar pra elas. Das meninas cujos sussurros gritam. Das meninas que pedem hoje, mesmo que em vão: "lembrem-se de mim."

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

da interpessoalidade ou o momento em que descobri que as bactérias eram diferentes das pessoas


Me lembro bem desse dia. Uma sala de aula de sexta série. Uma professora, que acumulava aulas em mais meia dúzia de escolas, falava a uma turma de pré-adolescentes que escorregava sutilmente para os braços de Morfeu. Menos eu. Eu, dentes tortos e espinhas pipocando pelo rosto, sempre fui a aluna mais temida de todos os professores. Eu era a audaciosa. E nessa aula, especificamente, eu era a única que estava prestando atenção no processo de reprodução das bactérias. Engraçado, já que reprodução é algo que causa nas mentes pré-adolescentes tão ou mais alvoroço que dia de passeio Hopi Hari. 
Eu desconhecia por completo o impacto que aquela aula teria em minha vida. Enquanto a cansada professora discorria sobre reprodução assexuada por duplicação, eu fiquei chocada: a outra bactéria continuaria tendo a personalidade da bactéria que a gerou? Ou ela seria uma nova bactéria, com traços de caráter e temperamento individuais? Quais seriam suas memórias, seus dilemas? Ela poderia duplicar-se também, gerando outras bactérias, depois de quanto tempo? E a bactéria gerada por ela conheceria a sua bactéria-avó? Estas dúvidas me perturbavam!
Pensei em usar de minha audácia e transferir a minha perturbação à minha pobre professora. Porém, calei-me a tempo. Queria tecer essas respostas sozinhas. E percebi também que dúvidas são preciosas, muito preciosas. Devem ser estudadas com cuidado, tratadas como jóias. Não devem ser divididas com qualquer um.
Aquela aula ocupou meus pensamentos por um longo, longo tempo. "Em que pensavam as bactérias?", era a pergunta que me perseguia a todo instante. Não conseguiria beber um Yakult com 'lactobacilos vivos' até encontrar sua resposta. Temia, ao engolir o Yakult, estar destruindo toda uma sociedade.
Para mim, o momento em que a Pergunta se forma é muito mais importante do que o em que a Resposta aparece. Porque a pergunta te leva a viajar pelo universo que é você, e poucas viagens são tão ricas e reveladoras. Pergunta boa, ainda, te faz achar o seu próprio universo insuficiente, e te leva a buscar respostas no universo do outro. Pergunta é um ser, uma pessoa. Agora, a Resposta... Ela é quase sempre tão arrogante! Respostas sempre se acham maiores do que realmente são. Quase todas não conseguem enxergar nada além do próprio umbigo. Resposta causa guerra. Quer colocar ponto final onde era pra ter vírgula, reticências. Resposta é um estado que quer ser pessoa.
Não me lembro bem do momento em que a Resposta dessa Pergunta apareceu. Mas foi com força, com muita, muita, muita força. E foi uma boa Resposta, porque gerou mais Perguntas. A Resposta veio violenta como um trovão, ressonante como um terremoto: bactérias não são pessoas. Pessoas tem personalidade, bactérias não (me perguntei se bactérias teriam bacterialidade, mas, infelizmente, o questionamento não sobreviveu por muito tempo).
As Perguntas fecundadas por esta Resposta passaram alguns anos incubadas. Foram nascer agora, há poucos dias. Bactérias não são pessoas e não podem ser como pessoas. Mas, e pessoas, podem ser como bactérias?
Estava eu, no alto dos meus dezoito-anos-quase-completos, tentando praticar Gálatas 6 e carregar os fardos pesados de outras pessoas, cumprindo, assim, a Lei de Cristo. É, você pode pensar: ela tem quase dezoito anos e ainda não se tocou de que não consegue fazer nada sozinha e ainda tenta cumprir a Lei. Ridículo, eu sei. De qualquer forma, eu estava tentando, com a melhor intenção possível. Por diversas vezes, eu, de sorriso plástico no rosto e sobrancelhas disciplinadas para não erguerem-se, encarava do outro lado da mesa estava meu objeto de estudo: pessoas que pediam emprestado meu coração para comigo dividir seus fardos (muito pesados, por sinal). Só que eu tenho mania de Atlas (ou transtorno de personalidade histriônica, descobri recentemente), e sempre acho que carregar o mundo todo será fichinha. Ao invés de lançar os fardos que eram colocados em mim para Cristo e trocá-los pelo Seu fardo, que é leve, eu me julgava capaz de dar conta de tamanha missão sem ajuda. Resultado: sobrecarregada, em um determinado momento, joguei todo o fardo que uma pessoa dividiu comigo de volta pra ela, com cinco vezes mais força. E, como um sopro suave, a Voz que despedaça os cedros do Líbano me disse: "Cuidado. Você está falando com um filho meu, criado a minha imagem e semelhança, com uma PESSOA. Não com uma bactéria."
Pessoa é assim. Pessoa demora pra aprender. Pessoa aprende diferente, Pessoa faz Pergunta, procura Resposta. Pessoa é nada. Há alguns séculos, o salmista perguntava a Deus quem era Pessoa para que Deus se preocupasse com ela. E achou uma Resposta que de tão firme e misteriosa é meio Pergunta: "Pouco menor do que os anjos o fizesse, e de glória e honra o coroaste." O porquê? É uma Pergunta cuja Resposta levaremos a vida inteira pra descobrir. Talvez, só a procura da Resposta já seja a Resposta em si.
Deus ama Pessoa, ama Pessoas. E precisa de Pessoas que amem Pessoas também. Quero derramar larga, abundante medida de amor por Pessoas em meu coração. Não tenho nem de longe o necessário. Porém, o Espírito Santo tem mais que o suficiente, e sua loja está aberta vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e trabalha com pronta-entrega. Ah, e é de graça também.

"Instantaneamente, percebi que no momento em que recostasse a cabeça no sofá, o céu se derramaria sobre mim. Esqueceria que quase morri congelado, esqueceria minha carteira vazia, o pneu estourado, meu casaco cheio de lama... Teria tocado as coisas eternas, porque não se pode ajudar 'ao menor destes' sem que se encontre com Jesus de alguma forma. A verdade de Mateus 25.40 cantaria dentro de mim:
'"O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’."

(...) Executar essa Palavra não leva a outra parte senão a vitória total, e estou plenamente persuadido de que Jesus gostaria que todos os filhos do Rei a experimentassem o tempo todo. A vida vitoriosa dos filhos do Rei é permitir que Ele, o Verbo, se incorpore em nós."
Harold Hill

quarta-feira, 6 de junho de 2012

vendo Deus


"Contudo explico, desentendo, procuro incansavelmente
a ponta da meada de seda,
o fundo da agulha de prata
que borda a blusa de Deus
que está no trono sentado
com olhar compassivo e ardente coração."
Adélia Prado

Era uma cinzenta manhã de domingo. A chuva tamborilava insistente na janela. Dezenas de pingos brincavam de escorregar e ficavam num diz-que-diz-que sem parar. Em meio a todos os barulhos externos e internos, eu clamava silenciosamente para que Deus deixasse que eu ouvisse Sua voz. Mal sabia eu que o Leão domesticado tinha mais em seus planos. Ele queria que eu o visse.
E naquele dia, Ele era uma mulher da periferia. Seu olhar acidentalmente encontrou-se com o meu. Ela passou a mão calejada pelo trabalho árduo em seus cabelos emaranhados, recém-lavados com sabão de coco, melhor que muito xampu de gringo, me diria mais tarde. Seu sorriso revelava força e superação de sobra, embora nele faltassem alguns dentes. Decido que em poucas vezes vi uma mulher tão bonita. Sua beleza transcendia todos os padrões culturais. Não pedia autorização para pulsar. Ela simplesmente existia, e não havia cirurgião plástico que pudesse retocá-la.
Deus, naquele domingo, calçava chinelos de dedo e vestia bermuda e camiseta. Tomando um café recém-coado, ela me contaria sua história.  Marido fugira de casa por outra mulher, abandonando-a com seis filhos pequenos. Nesse meio tempo, ela fez de tudo. Perdeu dentes, olhos, costurou, lavou, fez doce, artesanato, faxina. Suas mãos se escalavraram, seus anéis se dispersaram, sua corrente de ouro pagou conta de farmácia. Seus filhos estudaram, cresceram, casaram-se. E depois de onze anos, seu marido voltou pra casa. Bêbado.
 Embora ele tenha voltado para casa, ela vive apenas das memórias dos tempos felizes. E aparentemente, elas são muitas. Ao menos, são suficientes para que ela diga que o ama, e que ainda sente um friozinho na barriga antes de deitar-se ao seu lado. E diz também que Deus já havia realizado basicamente todos os seus sonhos. Abre a bolsa de couro gasto e me mostra fotos de seus netos. Bonitos, de olhos verdes. E um Deus que dá netos de olhos verdes para uma senhora como ela não é um Deus poderoso o suficiente para trazer seu amor de volta?
Eu a abracei, como se abraçasse Deus. E senti a saudade que me secava e corroía calar-se. Estava esperando Deus, cavocando minha pele com as unhas, querendo um pôster dele sob a minha cama. Achava que o encontraria quando fugisse com o Sol para a casa em que ele se escondia ao findar seu expediente. Não sabia que encontraria Deus naquele lugar tão inesperado. Funguei meu nariz e me poupei de chorar, não só porque tentava ser forte. Na verdade, foi porque não queria deixar que nada lavasse o encanto que encheu meus olhos ao olhar nos olhos de Deus, que naquele momento era aquela mulher. Seus olhos escuros eram cansados, mas profundos. Seriam tristes, se no fundo deles não se visse um jardim. Não daqui, mas jardim. 



"What if God was one of us?
Just a slob like one of us
Just a stranger on the bus
Trying to make His way home
If God had a face, what would it look like?
And would you want to see
If seeing mean that you would have to believe
In things like Heaven and Jesus and the Saints
And all the prophets?"
One of us - Joan Osborne

domingo, 20 de maio de 2012

vamos fugir deste lugar, baby




Hoje eu me dei conta de que sou uma dependente química.
Sim, você leu certo. Não funciono sem uma substância em particular. Quando fico sem ela, sofro de abstinências terríveis. Choro à toa, fico irritadiça, perco a motivação pra tudo. É, sou uma dependente química. E a marvada da minha vida é a tal da dopamina.
Pra quem não conhece, a dopamina é o hormônio da paixão. A paixão que faz a gente acordar feliz, queimar o coração e ficar com brilho nos olhos. Eu sou viciada em paixão.
Me dei conta disso hoje. Não sei fazer nada sem estar apaixonada. Preciso amar o que faço. E não só amar, como também sonhar com isso, pensar nisso o tempo todo. Sentir os olhos lacrimejarem e o coração arder quando falo no assunto. Eu sou dependente de paixão.
E quando me dou conta de que não estou tão apaixonada quando acho que deveria, meu segundo vício entra em ação: a fuga. Sou viciada em ir embora. Vivo fantasiando o momento em que fugirei de lugares, coisas, pessoas, situações. E tudo isso por um só motivo: sempre imagino que circunstâncias diferentes das atuais sejam melhores. E quando esse vício entra em ação, não importa pra onde ir. Só importa sair.
Só que eu estou em uma situação em que não dá pra fugir. Não dá, "porque nEle foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele" (Cl 1:16,17). Não dá pra resolver a minha abstinência lançando mão do segundo vício.
E aí, o que fazer?
Eu estou com saudade. Com saudade do meu Noivo. Com saudade da época em que eu deitava no colo dEle todos os dias, e Ele cantava para que eu dormisse. Saudade da época em que meu coração disparava a ouvir a Sua voz chamando meu nome, sabe? Não me entendam mal, ele até hoje dispararia. Mas, o problema é que eu não o ouvi mais.
A verdade é que eu queria ser totalmente dEle. Mas, antes, eu queria saber quem Ele é.
Sabe quando todas as convicções que você tinha sobre Deus, sobre a humanidade e sobre o modo correto de enxergar a vida e a realidade simplesmente dissolvem? Então, é bem por aí o que está acontecendo comigo...
Acontece que Deus é a Verdade. E essa Verdade é absoluta, inexorável, bela e cativante. Totalmente justa. Não precisa esforçar-se para manter-se verdadeira. E se ela não está sendo cativante, é porque tem alguma coisa errada.
A verdade é transparente, não precisa de sombras para se esconder, não precisa ser justificada nem melhorada com versões mais nobres. A verdade não ofende e está sempre em boa companhia, como da luz, do amor, da misericórdia, da justiça, que não são excludentes entre si. Por fim, ela alcançou o seu posto mais nobre quando o Filho de Deus a escolheu como parte de sua biografia: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6).
Eu acho não conheço essa Verdade. E não quero a caricatura grotesca que antes pensava que ela fosse.
Por isso, eu vou gastar cada minuto da minha vida em busca dEle. E tenho certeza de que essa busca será bem sucedida, porque Ele veio e morreu por isso.



"A vida de ressurreição que vocês receberam de Deus não é vazia. Nela há uma constante expectativa de aventura, que como uma criança, sempre pergunta para Deus: "E agora Papai, o que faremos?" Romanos 8:15, Bíblia em Linguagem Contemporânea


"Não estou tentando impor meu jeito. Estou tentando seguir Teu jeito, o jeito de Tua palavra. Sigo Tuas pegadas, um passo de cada vez, e não desisto."  Salmo 17:4-5, Bíblia em Linguagem Contemporânea

domingo, 6 de maio de 2012

Difícil. Se tem uma palavra que descreva tudo isso, é essa: difícil.
Nestas últimas duas semanas, tentei fazer o que todo mundo faz e ocupar minha cabeça com bobeiras e trivialidades. Até comecei um book club de "He's just not that into you." Pra vocês terem ideia, cheguei até a fazer notas do tipo 'Se ele gostou de você, vai lembrar mesmo depois da tsunami, da enchente ou da derrota da seleção. Se não gostou, não vale o seu tempo. Sabe por quê? Porque você é maravilhosa (mas, não vai ficar metida, hein?).'. Terrível. Tentei parecer feliz, viver no Facebook e afins. Não rolou. O porquê? Tem alguma coisa errada.
Eu sei que existe mais que isso. Sei disso, porque fui criada pra isso. Fui criada pra mais. E não adianta tentar contar até dez, fingir que não existe, cantar ou bater a cabeça na parede. Eu fui criada pra mais, e nada vai fazer isso mudar.
Tá, pode ser que você tenha lido até aqui e não entendido nada. Eu entendo isso, porque mesmo eu estou demorando pra entender o que está acontecendo. 
A questão é: há mais. Mais do quê? Da única coisa que importa, oras! E nem vou dizer o que é porque eu tenho certeza que você sabe.
Não só há mais, como também HÁ. Na verdade, eu acho que agora eu nem tenho que tentar me lembrar que há mais, mas que EXISTE. Que não é só isso. E só de pensar que há mais já dá pra tentar fazer com que a gente se lembre que há, porque quando se trata dEle, viver pela metade é pior do que não viver. 
E eu quero, sabe? Cansei de futilidades. Quero viver na essência, onde ser, e não parecer, é o que importa. 
E para isso, estou aqui. Estou aqui expressando meu desejo por Ele.
Mas, não entenda como se eu estivesse buscando pelo que todos já conhecemos. Não. Eu olho pra TV, pra Igreja, pra Bancada Evangélica... Nada disso me atrai. Aquele Deus não me atrai. 
Eu não quero o deus maniqueísta, o deus que castiga, o deus irracional. Eu quero o Deus que transcende, o Deus que é todo verdade, todo justiça, todo beleza. 
Eu não quero o deus dos fortes, o deus dos intelectuais. Eu quero o Deus que vê a criança que há dentro de cada um de nós. Eu quero o Deus que as acalente.
Eu não quero o deus que condena o aborto, a homossexualidade. Eu quero o Deus que abraça o homossexual, a mulher que abortou e cante pra ela. Eu quero o Deus da graça, o Deus do amor, o Deus que não vê realidades inexoráveis. Eu quero o Marceneiro que endireite qualquer pau torto.
E para que isso aconteça, para que eu veja esse Deus, coisas vão mudar. Aguardem.

sábado, 21 de abril de 2012

eu sei que vou ter ressaca moral, mas...

Não vou mentir pra vocês: há muitas horas que eu tenho vontade de ter um blog anônimo, pra poder escrever a besteira que eu quiser e ninguém saber que fui eu. Mas, eu acho que isso é uma baita de uma covardia, então, aqui estou eu, dando a minha cara a tapa. 


Eu tenho alguns princípios. Lisbeth Salander, a querida protagonista da série Millenium, do sueco Stieg Larsson, usa um termo que eu vou tomar emprestado: avaliar as consequências. Antes de comer uma caixa de bis inteira, você tem que pensar que você vai se sentir muito gorda depois. Antes de tomar decisões em situações de tensão, você tem que pensar na repercussão delas. Antes de ir ao mercado com fome, você tem que pensar que provavelmente você vai voltar pra casa com 30 hambúrgueres e algumas dúzias de pacotes de bolacha recheada. Antes de xingar a mãe da diretora do campus da sua universidade na reunião dos discentes, você tem que pensar que ela vai ter no mínimo mais 4 anos pra ferrar com a sua vida. Enfim, antes de escrever um post melodramático pro seu blog em uma noite solitária de sexta feira enquanto você ouve 'Sozinho' de Caetano Veloso, você tem que pensar que muitas pessoas vão lê-lo e você mesma vai morrer de ressaca moral na manhã seguinte.


Eu avaliei as consequências e estava pensando em me afundar na melancolia e guardar tudo pra mim, mas a fofa da Cíntia (eu imagino que ela vai odiar esse 'fofa') me incentivou a arrancar a dor do peito e devolver ao remetente. E eu vou fazer isso, mesmo que tenha que acordar cedo amanhã (ou hoje) e que a ressaca moral vá me engolir depois.
Talvez eu esteja num misto de TPM e crise de fim de adolescência. Acho que fim de adolescência acontece quando, como habilmente descrito pela Cíntia, a gente troca as crises de choro nervoso por um 'que paia'. E eu não curto nem um pouco essa história de 'somos todas princesas e escolhemos esperar e tal', mas tem hora que é muito legal se agarrar a essas ideias. Muito mais seguro. 


"Eu pensei... Eu pensei que você gostava de mim."
O que você pensa quando não está pensando direito


É sempre decepcionante quando a gente considera alguém como "quem sabe ele poderia ser alguém legal na minha vida blablablá" e depois começa a se sentir mal e ansiosa. Dói um pouquinho. E não é q estava necessariamente sentindo algo por ele, mas às vezes o que dói é perder a esperança de ter encontrado "the one".
Por mais que eu faça o tipo 'moderna', eu acredito que um dia vamos encontrar alguém q vai ser o melhor amigo e nunca vai nos deixar inseguras ou incertas a respeito das suas atitudes em relação a nada. O Greg do livro He's not into you (em português, Ele simplesmente não está tão a fim de você. Sim, eu li. Não, você não tem o direito de fazer comentários) nem é crente e ele diz várias vezes que um cara, quando tá apaixonado, vai fazer de tudo pra que você saiba que ele gosta de vc, porque ele não vai correr o risco de te perder pra outro. A gente não vai ter que se sentir perdida e vai ser simples e bom e de Deus.

E eu não sei se a gente tem só que esperar ser descoberta e não pode ser 'cachorra' e tal. Mas, sei que seria muito melhor se as coisas fluíssem com essa naturalidade. E nem adianta tentar relevar, tentar fingir que não existe, tentar me prometer que eu nunca mais vou fazer de novo, porque não vai rolar. Eu vou poupar o tempo de vocês e não vou ficar cheia de mimimi de 'só vou gostar de que gosta de mim' porque além de isso ser um saco, essa resolução costuma durar só algumas horas. E só pra constar: tá difícil a transição do rio de lágrimas para o 'que paia'.

Eu só sei que vou-me embora pra Pasárgada!

 "Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor...
(Mentira!)"
Samba do Grande Amor - Chico Buarque