sexta-feira, 22 de janeiro de 2010







Não sei como explicar
com todas as palavras
o quanto eu queria participar
da sua vida de vidas exatas,
das palavras que te sustentam
que te dão tanta segurança
Me vejo aqui de longe,
e o sentimento é o de uma criança
Que não sabe ouvir teu não,
que espera te decifrar
mas que ao mesmo tempo sabe
que não pode falar de amar.
Então agradeço contente
a presença de um grande amigo,
com o coração confortado
e feliz por não teres partido.
Porque mesmo que tua vida
não siga a minha como eu havia sonhado,
esconderei qualquer 'alguma coisa'
pra de qualquer forma te ter ao meu lado.
E seremos assim companheiros
parceiros nessa longa estrada
tão diferentes, mas não os primeiros
em uma amizade assim, inusitada.
Que o tempo passe tranquilo,
que seus filhos me conheçam um dia
e que nos ouçam contar sobre aquilo
que fez o 'pai' ser amigo da 'tia'.
Diremos a eles que podem
agir sempre honrando a verdade
que tudo podem construir,
nas bases sólidas de uma amizade.
Você vai rir me dizendo:
' Ainda é magrela,
morena, bobinha
e fala com voz
de sino badalado '
E eu vou responder feliz:
' Ainda tem o coração puro,
mas olhos de cigano
oblíquo
e dissimulado '.




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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

dois lados da mesma viagem...





Blog semi abandonado, muitas saudades daqui... Há um tempo, uma amiga muito querida me alertou que falar sem coração é mentir. Então, preferi recluir-me no meu silêncio, enquanto meu coração me mandava calar. Mas, um sopro chamou-me a este texto. Veio-me a cabeça uma canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Encontros e Despedidas”: “Tem gente que chega pra ficar/ Tem gente que vai/ Pra nunca mais.../Tem gente que vem e quer voltar/Tem gente que vai e quer ficar/Tem gente que veio só olhar/Tem gente a sorrir e a chorar/E assim a chegar e partir.../São só dois lados/Da mesma viagem/O trem que chega/É o mesmo trem/Da partida.../A hora do encontro/É também despedida”.
Sobre esse “trem”, quantas vezes refleti! O que é a vida senão uma sucessão de mudanças, alterações de rumos sobre os quais não nos é permitido interferir? O que é a vida senão um trem de itinerário desconhecido aos pobres passageiros, onde cada estação é uma perda que lhes faz chegar ao destino esperado?
Essa reflexão remeteu-me há exatamente um ano atrás. Encaixando minhas coisas em uma caixa, e buscando espaço pra elas em um caminhão de mudanças, via como meus artefatos coloridos foram resumidos apenas ao ocre do papelão. Via, melancolicamente, aquela mudança como um passo no escuro. Porém, hoje percebo que a ruptura nada mais é que a morte (temporária) do que já é morto, para a geração de outra vida.
Transpomos fases desta existência, superamos o que era “morto”, para encontrarmos noutras pessoas, noutros caminhos, construir por meio da desconstrução, da ruína de algo que se foi, numa demolição interna, numa implosão inevitável...
Basta a nós, meros mortais, percebermos que as árvores nuas são apenas um prenúncio de uma primavera florida. Que só encontramos uns se nos despedirmos de outros. Que a “hora da despedida é também encontro”. Que não há como optar por algo que nos estagne.
Não sei em que momento minha mente se fez claro esse processo. Sei que me transformei ao adquirir a sabedoria da consciência de ter esse conhecimento comigo, o que decerto não começou aqui, no palpável atual, mas no decifrável apenas para almas equilibradas. Não é, ainda, o meu caso.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009


"O amor é filme..
eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
eu sei por que sei muito bem como a cor da manhã fica
dá felicidade, dá dúvida, dor de barriga
é drama, aventura, mentira, comédia romântica..."
Cordel de fogo encantado - O amor é filme




E as coisas foram acontecendo assim, como num roteiro muito bem planejado. Seus olhares eram silenciosos, mas eloqüentes, como se houvesse ali uma legenda que expressasse seus pensamentos. Sorrisos, lágrimas e os dois ao mesmo tempo eram tão freqüentes que em mais de uma situação ficava impossível determinar se o final daquela história seria trágico ou feliz. Ele sempre estava lá, exatamente na hora em que ela estava lá também. Seus diálogos eram embalados por música. Ela estava sempre bonita. Seu primeiro beijo foi em um pôr do sol chuvoso, em uma marquise rodeada por flores, ao som de um hit romântico dos anos 80. Quando o sol pôs-se totalmente no horizonte, fogos de artifício iluminavam o céu. E os acontecimentos tomaram o rumo esperado. E quando aquela voz masculina aveludada anunciou o sonho "E viveram felizes para sempre", e os créditos começaram a subir, eu perguntei ao Diretor Divino o porquê de não poder ser sempre assim. E quase pude ouvir Ele responder: "Que graça teria se todos os atores estrelassem a mesma história?".  É, o Diretor divino é cheio de graça. Nos dois sentidos.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

a história de amor mais triste que já houve...


Sinceramente, hesitei um pouco em escrever essas palavras. Não que as ache desagradáveis, pelo contrário. É que elas doem em mim. Mas, como minha sina recém-descoberta de repórter de amores não me permite renegar missões, devo eu inflar-me de coragem e transformá-las em alimento que sacie a falta de significado do mundo.
Um dos protagonistas dessa triste história está sentado em frente a mim, enquanto escrevo essas palavras. Se algum de vocês examinar meus manuscritos, verá marcas. Marcas de dor, de risos, de lágrimas. Essa história foi vivida e escrita assim; banhada por lágrimas.
Ele era um apenas um rapaz, na época. Com seus traços nobres e suas maneiras cavalheirescas, herdeiro de uma grande e suntuosa fortuna, migrara de sua pacata e bucólica cidade natal para a agitada metrópole, com o objetivo de estudar. Leitor inveterado de poetas românticos, apesar de sua beleza e de sua fortuna, que arrancavam suspiros de jovenzinhas apaixonadas por onde quer que passasse, acreditava que nunca seria realmente feliz. Isso até encontrá-la.
Ela, mocinha de olhos e cabelos negros, dona de um forte gênio, estudava para professora na mesma universidade em que ele tencionava formar-se doutor. Rapidamente, ele notou-a. Não por sua beleza ou inteligência, apesar de essas serem notáveis, mas porque ela era a única que permanecia indiferente quando o via. E, como a natureza humana tende a desejar o que não a deseja, ele a amou, naquele momento.
Suas primeiras conversas foram marcadas por provocações e palavras ácidas. Ela, moça de família, porém com os horizontes ampliados demais para contentar-se com a ideia de passar a vida sendo tratada como troféu de um marmanjo mimado (não que ele o fosse. Era rico. E, sinto informar, a mocinha mantia um preconceito quase incurável em relação as pessoas ricas: acreditava que todas, sem exceção, eram fúteis demais para manter uma conversa inteligente.) ela não cedeu às suas primeiras tentativas de cortejá-la.
Cativado pela personalidade forte da jovenzinha, o rapaz não sucumbiu às suas provocações. Pelo contrário: seu espírito manso e dócil amou-a mais ainda, posto que o amor nada mais é que a saudável convivência de contrários. Nessa hora, ele interrompe sua narrativa e me aconselha: "Minha jovem, não procure sua alma gêmea. Procure seu complemento. Alguém igual a você não pode fazê-la uma pessoa melhor".
E, como era de se prever, ela também amou-o. A seu modo, é claro. Quanto mais ela o amava, mais ela o provocava com suas palavras ásperas e sarcásticas. E, quanto mais ela o provocava, mais ele apreciava sua companhia. Uma peculiaridade desse romance: seu ápice não deu-se no primeiro beijo. Deu-se no primeiro tapa. Despeitada e apaixonada, ela deu-lhe um tapa na face enquanto ele dirigia a ela seus melados galanteios. A esse tapa, ele respondeu com outro, e ela com outro, e pronto. Já estavam trocando apaixonados e calorosos beijos.
Passou-se algum tempo, e esse namoro bizarro evoluiu da forma que todos previam. Em pouco tempo, ele presenteou-a com um anel de brilhantes. E ela parou de provocá-lo e de tentar parecer independente: percebera que ele seria seu amor. Já estava escrito. Passavam todas as tardes juntos, trocando carinhos e palavras apaixonadas, imaginando seu futuro e admirando a fluente poesia que sua vida se tornaria quando seus lábios gritassem o "sim" que estava marcado para dali a poucos meses.
Até que uma peça do destino resolveu interromper seus planos. Em uma tarde chuvosa, ela queria voltar para casa. Ele disse que esperasse a chuva passar: era arriscado tomar o ônibus naquela tempestade. Ela zombou de sua preocupação estúpida, e deu-lhe um beijo de despedida. Disse que não havia pelo que temer, que em breve ela não precisaria mais separar-se dele. E depois daquela tarde, ela nunca mais voltou.
Ouviu-se de um trágico acidente de estrada, com uma moça entre as vítimas, porém, ele recusou-se a crer que ela estava envolvida. Preferiu acreditar que ela simplesmente se perdeu, no caminho. Todos os dias, ele escova seu terno para seu casamento dali a alguns meses. Eu não ouso desmentir suas esperanças. Pelo contrário, me esforço para compartilhar delas. Eu disse que essa história era dolorosa. Só a contei pela insistência dele em divulgar seu pedido: se você encontrar por aí, perdida, uma moça de olhos e cabelos negros, a moça mais linda do mundo, que tem um sorriso que faz qualquer coração disparar e uma voz cuja graciosidade que supera até a das sereias mediterrâneas, por favor, diga-lhe que espero por ela!

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quando seus amigos de infância se casam...

Era uma cermimônia muito estranha, inusitado enlace matrimonial de dois grandes amigos meus. Apesar de sermos muito próximos, realmente nunca imaginei que existia uma afeição especial entre o casal de noivos, Hercule Poirot e Miss Marple. Realmente, é estranho.
Não sei como cheguei ali. Acho que acordei ali. Estava vestida com um vestidinho rendado azul, que provava que eu não estava consciente momentos antes do casório. Mas, pouco me importava.
A noiva estava linda. Por linda, entenda linda, linda mesmo. Apesar de estar um pouquinho acima do peso, o vestido branco bordado combinou lindamente com seus cabelos grisalhos presos em um coque e com seu sorriso radiante. O amigo Poirot estava bem, bom... como você imagina que Poirot estaria no dia do seu casamento. Só que seu bigode estava um pouco mais engomado. E usava um paletó rosa-claro de muito bom gosto.
Cumprimento os noivos, com muita alegria. Sento-me sozinha em uma mesa, mas logo chegam Oliver Twist, Sherazade, o Analista de Bagé e Tom Sawyer para me acompanhar. Risadas e mais risadas, muita cerveja amanteigada e tudo mais que se espera quando amigos íntimos se reúnem.
Sherazade me atualiza das fofocas de seu mundo. Fíleas Fogg passara por aqui, em sua segunda volta ao mundo em 80 dias. Conhecera Capitu, e casaram-se ano passado. Tiveram um filho, que já rendeu muitas histórias: Maluquinho. Ângela e Leo também casaram-se. Esperam um bebê, menina. Provavelmente será batizada Pollyanna Moça.
Sou tirada pra dançar. Ebenezer Scrooge me conduz à pista com toda sua delicadeza e bom-humor conquistados após aquela experiência de quase-morte, com os três fantasmas, e tal. Mas, logo depois, ele tira a pequena Lúcia Pevensie e me deixa sem par. Por pouco tempo. Surge da multidão o querido amigo Huckleberry Finn. Ah, que alegria! Com seu cachimbo a mão, dança como ninguém! Supera em muito meu fôlego, e sou obrigada a parar um pouquinho.

Sento-me à mesa dos Potter. Com alegria, saúdo Harry Potter e Gina Weasley, mal sabendo que seu noivado era eminente. Comemos deliciosas rosquinhas, presentes de Tia Nastácia. Encontro também o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março, e passo deliciosos momentos em sua companhia, tomando chá e discutindo a nova onda: objetos que se transformam em animais. Você compra um relógio, e quando menos espera, puf! Ele se transforma em uma lagartixa! Um absurdo!
Acordo a Bela Adormecida com um beijinho no rosto e me sinto muito feliz em saber que seu casamento com o Príncipe Encantado foi bonito. E ela conseguiu ficar acordada até o final. Elogio o excelente gosto de Cinderela para sapatos, e finalmente, somos chamados para o discurso dos noivos.
Foi tudo muito bonito. O belga Poirot declarou a Miss Marple seu amor eterno, e mais essas baboseiras de como eles se completavam, e tal. Não sei direito o que ele falou porque estava ocupada demais fazendo os ratinhos de Cinderela voarem com o pó-de-pirlimpimpim da Sininho.
E, o momento mais esperado da festa: o buquê da noiva é jogado às convidadas. Tento achar um lugar bom entre elas. Um, dois, três e já! O buquê voa pelas primeiras fileiras e cai exatamente em minhas mãos. Agarro com força, e olhos para os lados, ao som dos aplausos de todos. Só uma pessoa não aplaude. É Sherlock Holmes. Ele me dá uma piscadinha, que faz meu rosto corar. Aii! Será que será esse o próximo casório?




Esse post foi pra dizer o seguinte: ESTOU DE FÉRIAS! E VOU PASSAR AQUI COM BEEEM MAIS FREQÜÊNCIA, ACOMPANHADA PELOS MEUS AMIGOS!
Beijos, de luz.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Agonias de uma repórter de amores




Não cabe a mim entender fatos. Apenas me foi designada a tarefa de narrá-los. Por isso, necessito mostrar meus surtos literários aleatórios a vocês. Para que me ajudem a entendê-los. Sinceramente, em minha cabeça, nada do que escrevo parece mais que pensamentos crus traduzidos em palavras. A beleza e a vida dessas palavras é responsabilidade de vocês. Pois, mais do que nunca, peço que me ajudem a entender esta história, que, seguindo a regra geral dos romances belos e ardentes, começa com um sim, seguido de um não.
Ela era uma princesa. Não o era por mérito, mas sim porque nascera assim. O destino deu a ela como primeiro lar simplesmente o útero da esposa preferida do Sultão. Todo o resto viera a partir disso. Um belo castelo, flores decorando suas instalações, um dote gordo e desejado e um pai que cortaria cabeças só para vê-la feliz. Tudo isso, combinado a uma beleza cativante: olhos grandes, expressivos e verdes, emoldurados por uma negra e farta cabeleira. Estudos da biologia dizem que animais belos são animais perigosos. Quanto mais vibrantes e harmoniosas suas formas são, mais potente e perigoso seu veneno. Essa regra também se aplicava á princesinha. Beleza estonteante, temperamento forte.
Um dia, em suas caminhadas matinais, ela encontrou com ele. E aí, a vida dela nunca mais foi a mesma. Ele era só um jardineiro franzino, mas, seu olhar negro fazia-a suspirar. E passaram-se meses assim. Ela rodeando-o, ele ignorando-a. Até que em um dia comum, seus olhares se cruzaram. Aí, todo o turbilhão de sensações que cruzava o corpo dela, passou a cruzar o dele também. Conversavam com os olhos, e com os olhos tornaram-se íntimos. Ele, apesar de ser gente simples, era também poeta inveterado. As únicas palavras que chegaram a trocar foram as rabiscadas por ele em pedacinhos de papel. E seus corações rapidamente foram amarrados por um sentimento estranho: amor.
O Sultão, estranhando os intermináveis passeios da princesinha nos bosques do castelo, um dia resolveu segui-la. E ficou enfurecido, horrorizado com o que viu. Como ousava aquele reles jardineirozinho ficar de sorrisos e bilhetinhos com sua amada filhinha? Como ousava olhar pra ela, de igual para igual? Ah, esse merecia a forca, sim, merecia! Seduzir a filha do Sultão? Que ousadia!

Surpreendeu os dois amantes mudos, com todo o seu exército. Queria degolar aquele jardineiro ali mesmo. Mas, não. "Um safado daqueles merecia ser morto em praça pública!" - gritou. Porém, algo estranho aconteceu. A princesinha antes arrogante e mimada, desfaleceu ao ouvir essas palavras. Gritava, chorava, pedindo para que a matasse no lugar dele. E o coração do Sultão compadeceu-se dela. Não a ponto de deixá-lo impune, mas compadeceu-se. E decidiu o castigo do pobre homem. Ele seria colocado em uma arena, e lá deveria escolher uma entre duas portas. Em uma delas, havia um tigre. Caso o jardineiro escolhesse a porta do tigre, deveria entregar-se a ele e aceitar a morte sem lutar, como um home digno. Na outra, havia uma dama e muito ouro. Se o jardineiro escolhesse essa porta, deveria casar-se com a dama e usar do ouro para ir pra muito, muito longe da princesinha. Não morreria, mas nunca mais a veria.
Infindáveis lágrimas rolaram pelos dois jovens pares de olhos. Se eu fosse contar todas elas, ficaria aqui eternamente escrevendo. Mas, como não temos tampo, vamos direto ao que importa: o dia do castigo. 

Toda a cidade reuniu-se para assistir a escolha o jardineiro, que desde sua sentença não via a princesa. Acorrentado e escoltado por dezenas de guardas, o homem adentra a arena. É posto entre as duas portas. Olha para as arquibancadas lotadas, pensando na sede sádica daqueles que não amam: sentem a obrigação de olhar para quem ama e achar-se superior. E na sua reflexão sobre como a  terra é infestada pela selvagem raça humana, encontra com os olhos da única que não se encaixava aí. Encontra com os olhos grandes e expressivos dela. Acostumado que estava a interpretar seu olhar, mesmo estando a metros de distância, pode entender a mensagem que ela tentava transmitir. Ela o amava, e o amaria para sempre. E ele deveria escolher a porta da esquerda. Qual era ela? A que ela levava? Qual foi o fim do jardineiro? Não me perguntem coisas que desconheço, caros leitores. Cumpri minha obrigação. Narrei os fatos. Agora, é com vocês. Seria o amor uma barreira intransponível, a ponto de que por amor a princesa aceitasse que seu amado pertencesse a outra? Ou seria o amor controlado pelo "eu" e pelo "que posso lucrar com isso?" : a princesa preferiria ver o amor de sua vida morto a vê-lo nos braços de outra? Não constranjam-me, leitores, perguntando coisas que não sei. Se soubesse, nem ocuparia seu tempo com essas coisas. É de vital importância que me ajudem, resolvendo meu dilema, posto que como repórter de amores, que inevitavelmente se envolve até o último fio de cabelo com os romances que narra, até meus sonhos estão sendo perturbados pela seguinte pergunta: que porta a princesa apaixonada escolheu?

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rute.

Era esse o nome dela. O nome de todas as mulheres da família há 3 gerações. Rute era tão desimportante aos olhos deles que nem julgavam importante gastar tempo para escolher um nome para ela.
Desde criança, foi privada de tudo. Nunca teve tempo para brincar, nunca foi à escola. Pobre e órfã de pais vivos, logo cedo foi aprisionada em casas de famílias alheias, onde recebia como salário o pão de cada dia e ainda mais indiferença.
Nessas casas, Rute sofreu todo tipo de violência. O porquê? Rute nunca aceitou o rótulo de coitada que lhe era oferecido. Era mulher. Era pobre. Era comum. Mas não era coitada. E que o mundo lidasse com isso. Eles que guardassem para si mesmos sua caridade, prima da pena, irmã da hipocrisia.
Refugiava-se na sua invisibilidade, renvolvia-se de coragem, e buscava nos livros o respeito e admiração que na vida real lhe faltavam. Junto a seus livros, não era mais uma pobre e suja moça. Era uma rainha austera e imponente, com ares de guerreira. Era uma mulher amada, valorizada. Deitada em seu leito simplório, Rute tinha com a literatura uma relação quase erótica, marital. Junto a um livro, ela tornava-se uma mulher com seu amante.
Mais dias cada vez mais ordinários se passaram. Em um deles, Rute é contratada para servir em um coquetel em recepção a um grande heroi de guerra. Diziam as más línguas que ele estava voltando do campo de batalha e pretendia realizar um antigo sonho: casar-se. Todas as moças casadoiras estavam em crescente euforia. Mas, Rute não. Ela sempre fora invisível. E não pretendia mudar de idéia agora.
Na tão esperada noite do baile, todas as moças dançavam, disputando a atenção do convidado especial. Menos Rute. Ela estava cumprindo seu papel, servindo bebidas, em um uniforme que escondia toda sua comum beleza, camuflando-se no ambiente. Não se surpreendeu com o herói atravessando o salão em direção a ela. Mas suas faces cobriram-se de rubor quando ele sussurrou em seus ouvidos a pergunta que fez todo o salão paralisar-se:
"Você quer dançar?"



 A resposta a essa pergunta podia mudar todo o curso de sua existência. Podia tanto eternizar sua condição de mulher invisível, quanto tornar sua vida uma eterna aventura rumo ao desconhecido. O que ele vira nela, afinal? Ela era comum: olhos comuns, cabelos comuns, sorriso comum. Porém, sua ordinariedade não importava agora. Com os olhos tomados por uma felicidade inédita, um sorriso radiante, Rute exclamou um sim! que fez todos explodirem em espanto.
Enquanto o casal rodopia no salão, ele, em trajes de gala, e ela, vestida de garçonete, o mundo inteiro pula de felicidade. Rute finalmente fora encontrada. Estava radiante. E, adivinha quem é a moça mais bonita do baile agora?

"E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Valsinha- Chico Buarque


Este é o meu 50º texto. Junto com meu beijo iluminado, vai meu muito obrigada a você, que me ajudou a chegar até aqui. Continuemos rumo à metamorfose definitiva, registrando aqui os meus (e os seus também, porque não?) surtos literários, nessa longa e bela jornada que é a vida.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

a mulher y



 Todos dizem que ela ganhou muito. Ela é filha daquelas que loucas por liberdade do chamado "mundo machista" queimavam suas roupas íntimas em praças públicas, deitavam em linhas de trem e faziam manifestações em grandes avenidas. É, ela realmente ganhou muito.
Hoje, ela não é mais escrava do mundo machista. Ela é empresária, é doutora, é juíza. Não se preocupa mais com roupas a lavar, almoço no fogão ou crianças pelo corredor.
Não se queixa mais de peitos caídos; afinal, nunca acalentou uma criança entre eles. Se diverte com todas as opções possíveis, porque nunca andou de branco por um corredor, nunca teve um anel dourado na mão esquerda.
É, ela está vivendo o que suas mães tanto sonharam. Elas estariam orgulhosas dela. Mas, ela chora. Nunca teve uma criança em seus seios. Nunca sentiu um bebê chutar sua barriga. Nunca se deu a oportunidade de ter um amor "até que a morte os separe." Nunca correu pelas ruas da cidade com sua mãe, atrás de um vestido de noiva. Nunca se permitiu admirar um buquê de rosas. Nunca morreu de amor. Nunca ensinou um bebê a andar. Nunca levou a família a praia.
Se entrega a muitos, não pertence a ninguém. E vive um dilema, perguntando-se que liberdade é essa que a liberou da servidão machista mas a tornou escrava de si mesma.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Carta ao amor desconhecido

"Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva!"
Cássia Eller - Palavras ao vento


Amor da minha vida, que ainda não chegou;


Esta não é mais uma carta de amor. São sonhos, rabiscados em torpes palavras, pra que você tente entender o que ainda é obscuro para mim...
Eu não te conheço. Bom, pelo menos acho que não. Talvez nós já tenhamos nos visto em alguma fila de banco, num cinema ou até mesmo no metrô. Mas, um dia, eu vou te (re)encontrar! E te reconhecer como minha goiabada-com-queijo! Fico fantasiando esse dia, sabe? Se a gente vai mesmo viver o resto da nossa vida juntos, é bom você saber: eu sou uma romântica incurável! Será que eu vou de repente me sentir flutuando, enquanto nossos olhares gritam a essência de um forte e fervoroso amor? Será que conseguiremos nos lembrar de como éramos antes de nos conhecer? Será que de uma hora para a outra vamos perceber que nos completamos, e que a vida não fará mais sentido, a não ser que enfrentemos a longa caminhada do amor juntinhos, com direito a uma sopa quentinha servida na nossa casinha-de-noiva? Será que demoraremos pra perceber que o nosso inevitável destino é entrelaçar o fio de nossas existências?
Ah, tantas incertezas! Não é fácil estar apaixonada por alguém que não conhecemos... Mas, acredito que amar não é ter sempre certeza. Muito pelo contrário. Nossas certezas nos desunem. Pra quê queremos nossa "tampa da panela" se tudo já nos é certo? Acredito que amar é aceitar que somos incompletos. É tirar a máscara de mulher forte, resistente e madura. É tornar-se de novo uma menina. É poder ser você mesma, e nunca precisar fingir. É confiar que suas incertezas, desesperanças e inseguranças apenas erguem o alicerce de uma personalidade que ama.
Então, você como já deve ter percebido, eu te amo. E estou escrevendo isso para falar que espero com expectativa nosso encontro. Somos imperfeitos, somos sujos, mas estamos juntos. E juntos superaremos. Vamos demorar pra aprender a nos amar. Vai ser difícil, eu sei. Mas, temos tempo. Todo o tempo do mundo, até que a morte nos separe! Peço que me ame, só. E eu vou te amar também. Ou melhor, continuar te amando.

Deixo aqui meu beijo, o primeiro e mais tímido de muitos, muitos calorosos e apaixonados beijos

Sua princesa, que ainda não chegou.


"Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva obscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor."
Vinicius de Moraes

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Casório ou velório?


A história que vou contar-lhes não é nem um pouco incomum. Não se trata de nenhuma paixão heróica, ardente. Também não se encaixa no perfil de "e viveram felizes para sempre." Muito pelo contrário, é uma história banal. Alguns diriam que até vulgar. Mas, creio que sua beleza está em sua normalidade. Afinal, se não houvesse beleza no "normal, básico", o que seria de pessoas como eu, de quem o futuro priva de grandes surpresas e de histórias mirabolantes?
Se passou há algumas semanas, naquele lago lodoso, onde as árvores estavam longe de estar floridas. O dia não estava ensolarado, o céu não estava azul. Tudo estava quieto, a não ser pela borboletinha voando silenciosa próximo a uma pedra. Como eu, você deve estar se perguntando o que uma borboleta fazia em um lugar tão insosso. Resposta simples: espiando o grande amor de sua vida. Sim, o grande amor de sua vida era o lagarto de aparência asquerosa a tomar sol sobre a pedra.
Nunca haviam trocado palavras. Muito provavelmente ele nunca sequer notou a presença da jovem borboleta. Mas, mesmo assim, ela o amava. Sentia sua força amarrada a seus passos, sentia-se como se o tempo parasse enquanto estava a contemplá-lo, via que sem ele simplesmente não havia caminho, ela simplesmente não se achava. Ele era sua única alternativa, a única saída para que ela aliviasse a dor de sua existência solitária. Então, por que ela não o seguia? Por que eles não entrelaçavam o fino fio de suas existências, dando àquele cenário frívolo e insosso um pouco mais de brilho e cor? Porque ela era simplesmente covarde demais para correr os riscos da perigosa estrada do amor. Tinha medo de ser ferida. Medo de ser rejeitada. E, o medo a imobilizava. Fazia com que preferisse ficar em silêncio. Tornava-a irracional a ponto de fazê-la ignorar que o medo de sofrer e de ser rejeitada fazia-a sofrer e ser rejeitada. Então, ela contentou-se em esconder-se na penumbra de seus pensamentos, contentando-se apenas em espiá-lo durante o dia e chorar sua falta durante a noite, quando ele costumava perder-se no lago. Via-se fadada a uma vida cinzenta e medíocre.
Mas, por um mero acaso do destino, aquele dia foi diferente. Em um ímpeto inexplicável, a borboletinha resolveu segui-lo. Pertenciam a mundos diferentes, ele podia rejeitá-la (ela era tão pequenininha!), ela podia sair brutalmente ferida. Mas, e daí? Ela o amava, e essa era a única coisa que parecia importar.
Então, ao anoitecer, a borboletinha se foi. Dando mil voltas dançantes no céu, mergulhou no lago.
No dia seguinte, não houve mais sequer notícia da borboletinha. Só um sinal diferenciava aquele dia de outros comuns: havia uma pequena florzinha a flutuar na superfície do lago. Seria essa flor resto da linda cerimônia de casamento realizada no fundo do lago, produto do belo e inusitado romance entre um lagarto e uma borboleta? Ou seria a florzinha apenas um voto de luto e respeito da natureza pela borboletinha, morta, despedaçada pela dor e desilusão? Nunca saberemos. Mas, simplesmente não importa. O que faz essa história valer a pena ser contada é a escolha da borboletinha.Tem que ser revelada às próximas gerações a opção da borboleta por abandonar a sombria mediocridade. Não importa se sua escolha a fez viver ou não sua tão desejada história de amor. Ela tentou. E fez do mundo um lugar mais bonito. E isso basta para que seja considerada correta.

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