segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Casório ou velório?


A história que vou contar-lhes não é nem um pouco incomum. Não se trata de nenhuma paixão heróica, ardente. Também não se encaixa no perfil de "e viveram felizes para sempre." Muito pelo contrário, é uma história banal. Alguns diriam que até vulgar. Mas, creio que sua beleza está em sua normalidade. Afinal, se não houvesse beleza no "normal, básico", o que seria de pessoas como eu, de quem o futuro priva de grandes surpresas e de histórias mirabolantes?
Se passou há algumas semanas, naquele lago lodoso, onde as árvores estavam longe de estar floridas. O dia não estava ensolarado, o céu não estava azul. Tudo estava quieto, a não ser pela borboletinha voando silenciosa próximo a uma pedra. Como eu, você deve estar se perguntando o que uma borboleta fazia em um lugar tão insosso. Resposta simples: espiando o grande amor de sua vida. Sim, o grande amor de sua vida era o lagarto de aparência asquerosa a tomar sol sobre a pedra.
Nunca haviam trocado palavras. Muito provavelmente ele nunca sequer notou a presença da jovem borboleta. Mas, mesmo assim, ela o amava. Sentia sua força amarrada a seus passos, sentia-se como se o tempo parasse enquanto estava a contemplá-lo, via que sem ele simplesmente não havia caminho, ela simplesmente não se achava. Ele era sua única alternativa, a única saída para que ela aliviasse a dor de sua existência solitária. Então, por que ela não o seguia? Por que eles não entrelaçavam o fino fio de suas existências, dando àquele cenário frívolo e insosso um pouco mais de brilho e cor? Porque ela era simplesmente covarde demais para correr os riscos da perigosa estrada do amor. Tinha medo de ser ferida. Medo de ser rejeitada. E, o medo a imobilizava. Fazia com que preferisse ficar em silêncio. Tornava-a irracional a ponto de fazê-la ignorar que o medo de sofrer e de ser rejeitada fazia-a sofrer e ser rejeitada. Então, ela contentou-se em esconder-se na penumbra de seus pensamentos, contentando-se apenas em espiá-lo durante o dia e chorar sua falta durante a noite, quando ele costumava perder-se no lago. Via-se fadada a uma vida cinzenta e medíocre.
Mas, por um mero acaso do destino, aquele dia foi diferente. Em um ímpeto inexplicável, a borboletinha resolveu segui-lo. Pertenciam a mundos diferentes, ele podia rejeitá-la (ela era tão pequenininha!), ela podia sair brutalmente ferida. Mas, e daí? Ela o amava, e essa era a única coisa que parecia importar.
Então, ao anoitecer, a borboletinha se foi. Dando mil voltas dançantes no céu, mergulhou no lago.
No dia seguinte, não houve mais sequer notícia da borboletinha. Só um sinal diferenciava aquele dia de outros comuns: havia uma pequena florzinha a flutuar na superfície do lago. Seria essa flor resto da linda cerimônia de casamento realizada no fundo do lago, produto do belo e inusitado romance entre um lagarto e uma borboleta? Ou seria a florzinha apenas um voto de luto e respeito da natureza pela borboletinha, morta, despedaçada pela dor e desilusão? Nunca saberemos. Mas, simplesmente não importa. O que faz essa história valer a pena ser contada é a escolha da borboletinha.Tem que ser revelada às próximas gerações a opção da borboleta por abandonar a sombria mediocridade. Não importa se sua escolha a fez viver ou não sua tão desejada história de amor. Ela tentou. E fez do mundo um lugar mais bonito. E isso basta para que seja considerada correta.

Um comentário:

kporto disse...

que lindo Doth!
e que triste..
estava esperando um final feliz ou um final comico, tipo: " a borboletinha feliz chegou junto do largato, e ele a comeu, seboreandos suas doces asas!" kkkkkk

tá cada dia melhor em filhaaaa, que orgulhoo!!!
PARABÉNSS!
escreva mais! to gostando!

BEIJOS

ps. essa história é bem familiar. diria que é até cotidiana... =/