quinta-feira, 15 de outubro de 2009


Depois de um longo banho, sentou-se com um livro. Dizem que o que lemos tende a condizer com nosso estado de espiríto. Se essa premissa for verdadeira, o fato de a jovem passar desesperadamente seus olhos famintos por um romance policial sangrento não era mera coincidência. No clímax do assassinato que deliciava sua mente, o telefone toca. Naquela noite de ventania, qualquer coisa que atrapalhasse sua introspecção era um incômodo, um estorvo. Aborrecida, ela atendeu-o. Aí, para sua total surpresa, ela ouve A voz. Ouviu a voz que tantas vezes sussurara em seus ouvidos que a amara. Ouviu a voz que saía dos lábios que a beijavam suave e deliciosamente, enquanto acariciava seu corpo de forma singularmente eletrizante. Lembrou-se de como ela se sentia em seus braços, de como aqueles seus olhos negros decifravam sua alma. Lembrou-se de como se sentia segura deitada sobre seu peito macio, a ouvir um coração que ela sabia que batia por ela. E aí, ela sorriu. Sorriu como só ele sabia fazê-la sorrir. E se sentiu aliviada. Mas, o relance da imagem de uma pessoa horrível interrompeu bruscamente seu êxtase: a outra. Imaginou-o beijando faminto os lábios da outra. Imaginou a outra delirando de prazer em seus braços, enquanto ouvia declarações de amor que não a pertenciam mais. Imaginou a outra deitada sobre o peito macio dele, a ouvir um coração que não batia mais por ela. Seu sorriso esmaeceu lentamente, e seu êxtase apaixonado converteu-se em ódio. Passaram-se nada mais que alguns segundos, mas para ela pareceram horas. Com os olhos marejados de lágrimas, tomada pela cólera, não sendo mais capaz de suportar a dor, desligou o telefone.

Essa foi uma das minhas primeiras tentativas de escrever um conto. Espero que curtam!

Um comentário:

Heloísa Vilela disse...

Amei! Gosto de contos com essas psicopatas mal-amadas...
São os melhores! ♥