terça-feira, 24 de novembro de 2009

Agonias de uma repórter de amores




Não cabe a mim entender fatos. Apenas me foi designada a tarefa de narrá-los. Por isso, necessito mostrar meus surtos literários aleatórios a vocês. Para que me ajudem a entendê-los. Sinceramente, em minha cabeça, nada do que escrevo parece mais que pensamentos crus traduzidos em palavras. A beleza e a vida dessas palavras é responsabilidade de vocês. Pois, mais do que nunca, peço que me ajudem a entender esta história, que, seguindo a regra geral dos romances belos e ardentes, começa com um sim, seguido de um não.
Ela era uma princesa. Não o era por mérito, mas sim porque nascera assim. O destino deu a ela como primeiro lar simplesmente o útero da esposa preferida do Sultão. Todo o resto viera a partir disso. Um belo castelo, flores decorando suas instalações, um dote gordo e desejado e um pai que cortaria cabeças só para vê-la feliz. Tudo isso, combinado a uma beleza cativante: olhos grandes, expressivos e verdes, emoldurados por uma negra e farta cabeleira. Estudos da biologia dizem que animais belos são animais perigosos. Quanto mais vibrantes e harmoniosas suas formas são, mais potente e perigoso seu veneno. Essa regra também se aplicava á princesinha. Beleza estonteante, temperamento forte.
Um dia, em suas caminhadas matinais, ela encontrou com ele. E aí, a vida dela nunca mais foi a mesma. Ele era só um jardineiro franzino, mas, seu olhar negro fazia-a suspirar. E passaram-se meses assim. Ela rodeando-o, ele ignorando-a. Até que em um dia comum, seus olhares se cruzaram. Aí, todo o turbilhão de sensações que cruzava o corpo dela, passou a cruzar o dele também. Conversavam com os olhos, e com os olhos tornaram-se íntimos. Ele, apesar de ser gente simples, era também poeta inveterado. As únicas palavras que chegaram a trocar foram as rabiscadas por ele em pedacinhos de papel. E seus corações rapidamente foram amarrados por um sentimento estranho: amor.
O Sultão, estranhando os intermináveis passeios da princesinha nos bosques do castelo, um dia resolveu segui-la. E ficou enfurecido, horrorizado com o que viu. Como ousava aquele reles jardineirozinho ficar de sorrisos e bilhetinhos com sua amada filhinha? Como ousava olhar pra ela, de igual para igual? Ah, esse merecia a forca, sim, merecia! Seduzir a filha do Sultão? Que ousadia!

Surpreendeu os dois amantes mudos, com todo o seu exército. Queria degolar aquele jardineiro ali mesmo. Mas, não. "Um safado daqueles merecia ser morto em praça pública!" - gritou. Porém, algo estranho aconteceu. A princesinha antes arrogante e mimada, desfaleceu ao ouvir essas palavras. Gritava, chorava, pedindo para que a matasse no lugar dele. E o coração do Sultão compadeceu-se dela. Não a ponto de deixá-lo impune, mas compadeceu-se. E decidiu o castigo do pobre homem. Ele seria colocado em uma arena, e lá deveria escolher uma entre duas portas. Em uma delas, havia um tigre. Caso o jardineiro escolhesse a porta do tigre, deveria entregar-se a ele e aceitar a morte sem lutar, como um home digno. Na outra, havia uma dama e muito ouro. Se o jardineiro escolhesse essa porta, deveria casar-se com a dama e usar do ouro para ir pra muito, muito longe da princesinha. Não morreria, mas nunca mais a veria.
Infindáveis lágrimas rolaram pelos dois jovens pares de olhos. Se eu fosse contar todas elas, ficaria aqui eternamente escrevendo. Mas, como não temos tampo, vamos direto ao que importa: o dia do castigo. 

Toda a cidade reuniu-se para assistir a escolha o jardineiro, que desde sua sentença não via a princesa. Acorrentado e escoltado por dezenas de guardas, o homem adentra a arena. É posto entre as duas portas. Olha para as arquibancadas lotadas, pensando na sede sádica daqueles que não amam: sentem a obrigação de olhar para quem ama e achar-se superior. E na sua reflexão sobre como a  terra é infestada pela selvagem raça humana, encontra com os olhos da única que não se encaixava aí. Encontra com os olhos grandes e expressivos dela. Acostumado que estava a interpretar seu olhar, mesmo estando a metros de distância, pode entender a mensagem que ela tentava transmitir. Ela o amava, e o amaria para sempre. E ele deveria escolher a porta da esquerda. Qual era ela? A que ela levava? Qual foi o fim do jardineiro? Não me perguntem coisas que desconheço, caros leitores. Cumpri minha obrigação. Narrei os fatos. Agora, é com vocês. Seria o amor uma barreira intransponível, a ponto de que por amor a princesa aceitasse que seu amado pertencesse a outra? Ou seria o amor controlado pelo "eu" e pelo "que posso lucrar com isso?" : a princesa preferiria ver o amor de sua vida morto a vê-lo nos braços de outra? Não constranjam-me, leitores, perguntando coisas que não sei. Se soubesse, nem ocuparia seu tempo com essas coisas. É de vital importância que me ajudem, resolvendo meu dilema, posto que como repórter de amores, que inevitavelmente se envolve até o último fio de cabelo com os romances que narra, até meus sonhos estão sendo perturbados pela seguinte pergunta: que porta a princesa apaixonada escolheu?

6 comentários:

Anônimo disse...

Pois é dona Doroth... esse texto me deixou em dúvida... e sua intenção de deixar os leitores em dúvida deu certo, pq a primeira já ficou ... hauhauhasuash
Aaaaaah ...
Beijoos
Érikaa

Keyla disse...

Eu acho que é a porta do tigre...

Adoradora de Cristo disse...

Bem...dá que pensar...quando eu souber a resposta eu digo!! =P

kporto disse...

duvida?? aiii

gabs . disse...

hahaha, e essa dúvida perdura desde uma aula de sociologia!
pelo que eu me lembre, eu acho que ela, estonteantemente linda e, por assim dizer, perigosa, escolheu a porta do tigre! Mas quando penso no sofrimento e na disposição em entregar-se no lugar do amado quando a sentença fora narrada, sinto que tanto egoísmo fora transformado em amor, e não querendo o fim da vida de seu jardineiro, optou pela felicidade dele, embora não é certa tal felicidade!

deu pra entender que continuo em dúvida? rs

bravo doth, você é linda♥

gii bardi disse...

É, voce plantou a semente da dúvida direitinho! ><'
As duas portas levariam a um sofrimento muito grande, mas talvez deixa-lo vivo fosse mesmo a melhor opçao..
Ah, Doth, nao pode fazer assim com as pessoas! haha
Sempre apaixonantes seus textos *-*