segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rute.

Era esse o nome dela. O nome de todas as mulheres da família há 3 gerações. Rute era tão desimportante aos olhos deles que nem julgavam importante gastar tempo para escolher um nome para ela.
Desde criança, foi privada de tudo. Nunca teve tempo para brincar, nunca foi à escola. Pobre e órfã de pais vivos, logo cedo foi aprisionada em casas de famílias alheias, onde recebia como salário o pão de cada dia e ainda mais indiferença.
Nessas casas, Rute sofreu todo tipo de violência. O porquê? Rute nunca aceitou o rótulo de coitada que lhe era oferecido. Era mulher. Era pobre. Era comum. Mas não era coitada. E que o mundo lidasse com isso. Eles que guardassem para si mesmos sua caridade, prima da pena, irmã da hipocrisia.
Refugiava-se na sua invisibilidade, renvolvia-se de coragem, e buscava nos livros o respeito e admiração que na vida real lhe faltavam. Junto a seus livros, não era mais uma pobre e suja moça. Era uma rainha austera e imponente, com ares de guerreira. Era uma mulher amada, valorizada. Deitada em seu leito simplório, Rute tinha com a literatura uma relação quase erótica, marital. Junto a um livro, ela tornava-se uma mulher com seu amante.
Mais dias cada vez mais ordinários se passaram. Em um deles, Rute é contratada para servir em um coquetel em recepção a um grande heroi de guerra. Diziam as más línguas que ele estava voltando do campo de batalha e pretendia realizar um antigo sonho: casar-se. Todas as moças casadoiras estavam em crescente euforia. Mas, Rute não. Ela sempre fora invisível. E não pretendia mudar de idéia agora.
Na tão esperada noite do baile, todas as moças dançavam, disputando a atenção do convidado especial. Menos Rute. Ela estava cumprindo seu papel, servindo bebidas, em um uniforme que escondia toda sua comum beleza, camuflando-se no ambiente. Não se surpreendeu com o herói atravessando o salão em direção a ela. Mas suas faces cobriram-se de rubor quando ele sussurrou em seus ouvidos a pergunta que fez todo o salão paralisar-se:
"Você quer dançar?"



 A resposta a essa pergunta podia mudar todo o curso de sua existência. Podia tanto eternizar sua condição de mulher invisível, quanto tornar sua vida uma eterna aventura rumo ao desconhecido. O que ele vira nela, afinal? Ela era comum: olhos comuns, cabelos comuns, sorriso comum. Porém, sua ordinariedade não importava agora. Com os olhos tomados por uma felicidade inédita, um sorriso radiante, Rute exclamou um sim! que fez todos explodirem em espanto.
Enquanto o casal rodopia no salão, ele, em trajes de gala, e ela, vestida de garçonete, o mundo inteiro pula de felicidade. Rute finalmente fora encontrada. Estava radiante. E, adivinha quem é a moça mais bonita do baile agora?

"E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Valsinha- Chico Buarque


Este é o meu 50º texto. Junto com meu beijo iluminado, vai meu muito obrigada a você, que me ajudou a chegar até aqui. Continuemos rumo à metamorfose definitiva, registrando aqui os meus (e os seus também, porque não?) surtos literários, nessa longa e bela jornada que é a vida.

3 comentários:

gii bardi disse...

Assim meus comentários ficam até monótonos! Como pode uma futura borboleta escrever assim tão bem? *-*
Acho que, no fim das contas, a Rute foi mais feliz do que a tal 'mulher liberta' do texto anterior. Há de se buscar a felicidade nos lugares certos ;)

Parabéns pelo 50º texto e que venham muitos mais pro nosso bem! :D

gabs . disse...

conheço essa história!
um certo (ótimo) professor de sociologia que me perdoe, mas você deu ainda mais graça e luz à Rute, que cuidava do jardim enquanto esperava pelas borboletas ;D

muito obrigada por todos esses posts maravailhosos♥

julia disse...

Seu pai já contou essa história, mas faço minhas as palavras da gabs! Você tem um jeito encantador de dizer em um post como a Rute era perfeita e comum ao mesmo tempo. Parabéns :)