quarta-feira, 11 de abril de 2012

eu, o mundo e o guarda-roupa


Uns dias atrás estava pensando em ir em um desses achados e perdidos da vida em busca da minha poesia. Alguma coisa muito séria havia acontecido. Eu olhava para as flores, para a chuva ou para o mar e não via nada além de flores, chuva e mar. Olhava para as pessoas, e não via nada além de simples pessoas. Enxergar por trás do óbvio: um dom raro e indispensável.
E em meio a um desses dias em preto-e-branco, me peguei sonhando. Outro dom raro e indispensável, uma vez que os tempos são difíceis para os sonhadores. Me peguei imaginando se é isso tudo mesmo. Se ser livre é fazer tudo o que se tem vontade, se ser feliz é coisa que se consiga sozinho. Fiquei me perguntando se de fato não existem mesmo verdades absolutas e se o ideal é somente consequência do material. Fiquei pensando se tudo é mesmo virtude ou consequência de uma sinapse ou de um hormônio qualquer. Fiquei me perguntando se de fato  evoluímos. E se sim, e não vamos para lugar nenhum? Imaginei se seria verdade a ciência pode tudo; que verdade é a palavra dos vencedores; que os mais fortes sobreviverão, e que é o direito natural deles. E fiquei imaginando se é verdade que há milênios o povo tem consumido ópio e fugido da realidade. Fiquei pensando se chorar é mesmo coisa de criança e se não existe sentido, propósito e nem porquê na existência de tudo. Fiquei imaginando se é verdade que a única coisa que governa a essência é a existência. E de tanto imaginar, tive medo. É complicado, porque parece que no mundo de hoje a gente não pode ter medo. Medo é coisa de gente fraca, e ser fraco é ruim. Mas, eu tive medo, e chorei, mesmo sabendo que chorar é coisa de criança. E me escondi no guarda-roupa.
E dentro do guarda-roupa, descobri um outro mundo. Descobri um mundo onde os que choram são consolados. Onde os mansos herdarão a terra.Um mundo em que os que tem fome e sede de justiça são saciados. Onde todas as coisas se fazem novas, onde não há mais morte, nem dor, porque tudo já foi passado. Descobri um mundo onde pau que nasce torto se endireita SIM, por meio de, ironicamente, um madeiro de paus retos, cruzados. Descobri um mundo onde existe um Leão, um Rei, um Pai. E esse Pai, mesmo podendo viver sozinho, escolheu soprar pra fora desse guarda-roupa e convidar-me a entrar lá dentro. E esse Leão, mesmo podendo me devorar, escolheu não fazê-lo, e não só isso: me aninha todas as noites. E eu não sei afirmar com certeza e com argumentos exatos se esse guarda-roupa existe mesmo e se eu só não estou sendo fraca mais uma vez e fugindo da tal 'realidade'. Mas, vou dizer com certeza que, mesmo que ele não exista, eu não vou mais sair de dentro dele.








“Uma palavrinha, dona – disse ele, mancando de dor -, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhorar cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo – árvores, relva, sol, lua, estrela e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que Nárnia não exista. Assim, agradecendo sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que as nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz.” Brejeiro em A Cadeira de Prata, As Crônicas de Nárnia, Livro 6

Um comentário:

Thaís Freiria disse...

Que bom lembrar que "não sou daqui"... e que "posso não enxergar esse lugar, mas vou procurar até encontrar"... Existe muito mais dentro do guarda-roupa, e também nao quero sair de lá por nada que esse mundo aqui de fora possa oferecer!