quarta-feira, 6 de junho de 2012

vendo Deus


"Contudo explico, desentendo, procuro incansavelmente
a ponta da meada de seda,
o fundo da agulha de prata
que borda a blusa de Deus
que está no trono sentado
com olhar compassivo e ardente coração."
Adélia Prado

Era uma cinzenta manhã de domingo. A chuva tamborilava insistente na janela. Dezenas de pingos brincavam de escorregar e ficavam num diz-que-diz-que sem parar. Em meio a todos os barulhos externos e internos, eu clamava silenciosamente para que Deus deixasse que eu ouvisse Sua voz. Mal sabia eu que o Leão domesticado tinha mais em seus planos. Ele queria que eu o visse.
E naquele dia, Ele era uma mulher da periferia. Seu olhar acidentalmente encontrou-se com o meu. Ela passou a mão calejada pelo trabalho árduo em seus cabelos emaranhados, recém-lavados com sabão de coco, melhor que muito xampu de gringo, me diria mais tarde. Seu sorriso revelava força e superação de sobra, embora nele faltassem alguns dentes. Decido que em poucas vezes vi uma mulher tão bonita. Sua beleza transcendia todos os padrões culturais. Não pedia autorização para pulsar. Ela simplesmente existia, e não havia cirurgião plástico que pudesse retocá-la.
Deus, naquele domingo, calçava chinelos de dedo e vestia bermuda e camiseta. Tomando um café recém-coado, ela me contaria sua história.  Marido fugira de casa por outra mulher, abandonando-a com seis filhos pequenos. Nesse meio tempo, ela fez de tudo. Perdeu dentes, olhos, costurou, lavou, fez doce, artesanato, faxina. Suas mãos se escalavraram, seus anéis se dispersaram, sua corrente de ouro pagou conta de farmácia. Seus filhos estudaram, cresceram, casaram-se. E depois de onze anos, seu marido voltou pra casa. Bêbado.
 Embora ele tenha voltado para casa, ela vive apenas das memórias dos tempos felizes. E aparentemente, elas são muitas. Ao menos, são suficientes para que ela diga que o ama, e que ainda sente um friozinho na barriga antes de deitar-se ao seu lado. E diz também que Deus já havia realizado basicamente todos os seus sonhos. Abre a bolsa de couro gasto e me mostra fotos de seus netos. Bonitos, de olhos verdes. E um Deus que dá netos de olhos verdes para uma senhora como ela não é um Deus poderoso o suficiente para trazer seu amor de volta?
Eu a abracei, como se abraçasse Deus. E senti a saudade que me secava e corroía calar-se. Estava esperando Deus, cavocando minha pele com as unhas, querendo um pôster dele sob a minha cama. Achava que o encontraria quando fugisse com o Sol para a casa em que ele se escondia ao findar seu expediente. Não sabia que encontraria Deus naquele lugar tão inesperado. Funguei meu nariz e me poupei de chorar, não só porque tentava ser forte. Na verdade, foi porque não queria deixar que nada lavasse o encanto que encheu meus olhos ao olhar nos olhos de Deus, que naquele momento era aquela mulher. Seus olhos escuros eram cansados, mas profundos. Seriam tristes, se no fundo deles não se visse um jardim. Não daqui, mas jardim. 



"What if God was one of us?
Just a slob like one of us
Just a stranger on the bus
Trying to make His way home
If God had a face, what would it look like?
And would you want to see
If seeing mean that you would have to believe
In things like Heaven and Jesus and the Saints
And all the prophets?"
One of us - Joan Osborne

5 comentários:

Anônimo disse...

A arte de se expressar com graça e poesia é realmente um dom de Deus, e nessa fila vc passou um milhão de vezes né?! Apaixonante! bjus linda.
Ferzera

Lis, disse...

Meu amoor, simplesmente incrível! :) Vemos Deus nas pessoas e coisas mais inesperadas... :P
Love ya, minha inspiração ;)
beeeeijo

Rebeca Barros disse...

Simplesmente lindo e perfeito! A melhor aparição de Deus em nossas vidas, vêm através das pessoas. Como Ele habita em nós e nós O refletimos! Isso é maravilhoso e mágico! Parabéns pelo dom das palavras!

Murielle disse...

Oii,
Meu comentário vai ser todo meloso e carregado de emoção, porque acompanhava os seus textos pelo blog há mais de um ano, mas fiquei alguns meses sei olhar e acabei me esquecendo do blog. Mas ontem me veio à lembrança a existência do seu blog, que eu já não lembrava do nome tb. Hoje por iluminação divina consegui lembrar o nome do seu blog e qd encontrei o link fiquei super feliz, com os olhos brilhando. Inconfundível sua maneira de escrever, os textos continuam ótimos, profundos e ao mesmo tempo super diretos.
Parabéns!

Anônimo disse...

O que você escreve jamais poderá ser chamado de bobagens, ao contrário, Deus te deu esse dom, por isso nunca deixe de usá-lo.Só hoje conheci o seu blog e amei o texto "Vendo Deus" e aquele, no qual você postou a foto daquela garotinha do Nepal... Não pude conter as lágrimas quando vi aquela garotinha e pensar que ela não pôde viver a sua infância, a sua inocência...