quarta-feira, 8 de agosto de 2012

da interpessoalidade ou o momento em que descobri que as bactérias eram diferentes das pessoas


Me lembro bem desse dia. Uma sala de aula de sexta série. Uma professora, que acumulava aulas em mais meia dúzia de escolas, falava a uma turma de pré-adolescentes que escorregava sutilmente para os braços de Morfeu. Menos eu. Eu, dentes tortos e espinhas pipocando pelo rosto, sempre fui a aluna mais temida de todos os professores. Eu era a audaciosa. E nessa aula, especificamente, eu era a única que estava prestando atenção no processo de reprodução das bactérias. Engraçado, já que reprodução é algo que causa nas mentes pré-adolescentes tão ou mais alvoroço que dia de passeio Hopi Hari. 
Eu desconhecia por completo o impacto que aquela aula teria em minha vida. Enquanto a cansada professora discorria sobre reprodução assexuada por duplicação, eu fiquei chocada: a outra bactéria continuaria tendo a personalidade da bactéria que a gerou? Ou ela seria uma nova bactéria, com traços de caráter e temperamento individuais? Quais seriam suas memórias, seus dilemas? Ela poderia duplicar-se também, gerando outras bactérias, depois de quanto tempo? E a bactéria gerada por ela conheceria a sua bactéria-avó? Estas dúvidas me perturbavam!
Pensei em usar de minha audácia e transferir a minha perturbação à minha pobre professora. Porém, calei-me a tempo. Queria tecer essas respostas sozinhas. E percebi também que dúvidas são preciosas, muito preciosas. Devem ser estudadas com cuidado, tratadas como jóias. Não devem ser divididas com qualquer um.
Aquela aula ocupou meus pensamentos por um longo, longo tempo. "Em que pensavam as bactérias?", era a pergunta que me perseguia a todo instante. Não conseguiria beber um Yakult com 'lactobacilos vivos' até encontrar sua resposta. Temia, ao engolir o Yakult, estar destruindo toda uma sociedade.
Para mim, o momento em que a Pergunta se forma é muito mais importante do que o em que a Resposta aparece. Porque a pergunta te leva a viajar pelo universo que é você, e poucas viagens são tão ricas e reveladoras. Pergunta boa, ainda, te faz achar o seu próprio universo insuficiente, e te leva a buscar respostas no universo do outro. Pergunta é um ser, uma pessoa. Agora, a Resposta... Ela é quase sempre tão arrogante! Respostas sempre se acham maiores do que realmente são. Quase todas não conseguem enxergar nada além do próprio umbigo. Resposta causa guerra. Quer colocar ponto final onde era pra ter vírgula, reticências. Resposta é um estado que quer ser pessoa.
Não me lembro bem do momento em que a Resposta dessa Pergunta apareceu. Mas foi com força, com muita, muita, muita força. E foi uma boa Resposta, porque gerou mais Perguntas. A Resposta veio violenta como um trovão, ressonante como um terremoto: bactérias não são pessoas. Pessoas tem personalidade, bactérias não (me perguntei se bactérias teriam bacterialidade, mas, infelizmente, o questionamento não sobreviveu por muito tempo).
As Perguntas fecundadas por esta Resposta passaram alguns anos incubadas. Foram nascer agora, há poucos dias. Bactérias não são pessoas e não podem ser como pessoas. Mas, e pessoas, podem ser como bactérias?
Estava eu, no alto dos meus dezoito-anos-quase-completos, tentando praticar Gálatas 6 e carregar os fardos pesados de outras pessoas, cumprindo, assim, a Lei de Cristo. É, você pode pensar: ela tem quase dezoito anos e ainda não se tocou de que não consegue fazer nada sozinha e ainda tenta cumprir a Lei. Ridículo, eu sei. De qualquer forma, eu estava tentando, com a melhor intenção possível. Por diversas vezes, eu, de sorriso plástico no rosto e sobrancelhas disciplinadas para não erguerem-se, encarava do outro lado da mesa estava meu objeto de estudo: pessoas que pediam emprestado meu coração para comigo dividir seus fardos (muito pesados, por sinal). Só que eu tenho mania de Atlas (ou transtorno de personalidade histriônica, descobri recentemente), e sempre acho que carregar o mundo todo será fichinha. Ao invés de lançar os fardos que eram colocados em mim para Cristo e trocá-los pelo Seu fardo, que é leve, eu me julgava capaz de dar conta de tamanha missão sem ajuda. Resultado: sobrecarregada, em um determinado momento, joguei todo o fardo que uma pessoa dividiu comigo de volta pra ela, com cinco vezes mais força. E, como um sopro suave, a Voz que despedaça os cedros do Líbano me disse: "Cuidado. Você está falando com um filho meu, criado a minha imagem e semelhança, com uma PESSOA. Não com uma bactéria."
Pessoa é assim. Pessoa demora pra aprender. Pessoa aprende diferente, Pessoa faz Pergunta, procura Resposta. Pessoa é nada. Há alguns séculos, o salmista perguntava a Deus quem era Pessoa para que Deus se preocupasse com ela. E achou uma Resposta que de tão firme e misteriosa é meio Pergunta: "Pouco menor do que os anjos o fizesse, e de glória e honra o coroaste." O porquê? É uma Pergunta cuja Resposta levaremos a vida inteira pra descobrir. Talvez, só a procura da Resposta já seja a Resposta em si.
Deus ama Pessoa, ama Pessoas. E precisa de Pessoas que amem Pessoas também. Quero derramar larga, abundante medida de amor por Pessoas em meu coração. Não tenho nem de longe o necessário. Porém, o Espírito Santo tem mais que o suficiente, e sua loja está aberta vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, e trabalha com pronta-entrega. Ah, e é de graça também.

"Instantaneamente, percebi que no momento em que recostasse a cabeça no sofá, o céu se derramaria sobre mim. Esqueceria que quase morri congelado, esqueceria minha carteira vazia, o pneu estourado, meu casaco cheio de lama... Teria tocado as coisas eternas, porque não se pode ajudar 'ao menor destes' sem que se encontre com Jesus de alguma forma. A verdade de Mateus 25.40 cantaria dentro de mim:
'"O Rei responderá: ‘Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’."

(...) Executar essa Palavra não leva a outra parte senão a vitória total, e estou plenamente persuadido de que Jesus gostaria que todos os filhos do Rei a experimentassem o tempo todo. A vida vitoriosa dos filhos do Rei é permitir que Ele, o Verbo, se incorpore em nós."
Harold Hill

4 comentários:

Ágata Larsen disse...

super interessante!

Eliasaf disse...

Estou muito edificado com esse texto. Te amo, filha. Papai.

Brenda Beat disse...

Tenho certeza que você está derramando muito amor pelo mundo ^^ Bjs flor!

Conexão da Graça disse...

Simples_mente sofis_ticado o conteúdo do seu blog. Aplausos de pé!!!