sexta-feira, 22 de março de 2013

sobre a Noite e como (não) enfrentá-la

Era noite lá fora. E aqui dentro, também. Eu sabia que era noite, porque não importava o tanto que eu tentasse fazer com que as coisas se iluminassem, elas nunca deixavam de ser escuras. No máximo, elas clareavam sob um único ângulo, de uma forma amarelada, fria, artificial. Era noite porque estava frio e um vento assustador entrava pela janela. Eu podia tentar fechá-la com toda a força, podia tentar cobri-la, mas o vento era tão insistente que ignorava todos os meus esforços.
Era noite, mas não era qualquer noite. Era uma daquelas noites difíceis. Difíceis porque embora o cansaço tomasse conta de mim, eu não conseguia dormir. Não era um cansaço sereno, tranquilo. Era um cansaço cheio de dúvidas, de medo, de culpa. Era um cansaço que não se permitia descansar. Era um cansaço que reverberava desânimo.
Eu estava sozinha. Não que ninguém estivesse próximo a mim, não entenda assim. Na verdade, havia várias pessoas a minha volta. E não só fisicamente: muitas delas se preocupavam comigo e tentavam o máximo possível manter o coração bem pertinho. Mas as minhas portas estavam todas trancadas.
O telefone tocava sem parar. Tocava tanto o meu telefone celular quanto também aquele que a gente aprendeu na escolinha dominical que é “o telefone do céu”. Em ambos, eu era monossilábica. O segundo era sempre mais insistente: discava uma, duas, ou três vezes. E se eu não atendesse, ele tentava de novo.
Porém, em um dia no meio dessa noite de meses, o telefone-do-céu ligou. Eu nunca tinha aprendido que ele funcionava sem ser acionado, mas parece que é insistente e proativo, esse Telefonista. Ele ia falar comigo naquela grande noite, mesmo que morresse tentando. Ou melhor: Ele havia morrido para isso.
Uma vez, as lágrimas tanto sufocavam a minha voz que Ele mal entendia o que eu falava. Aí, Ele não conseguiu mais esperar. Saiu de onde estava, e veio bater em minha porta fechada. Suportou o escuro da noite, o perigo das ruas, o desconforto do sereno.
Não fui uma anfitriã educada. Já havia me vestido, me banhado, lavado meus pés. Não queria ter que ir até a porta, não queria pensar no que ia dizer. Muitas coisas passavam pelo meu coração naquela hora, e eu teria de fazer um esforço de filtração muito grande para não falar nada que fosse ofensivo. E vocês sabem, no muito pensar há cansaço. E cansaço eu já tinha de sobra. Demorei muito para atender à porta.
Mas, ah, aquele homem... Ele não estava disposto a desistir tão cedo. Sem permitir que Ele entrasse, fui falar com Ele. E a primeira palavra que Ele disse fez com que meu coração derretesse e minhas pernas balançassem. Conversamos por mais de uma hora. Ele foi aos poucos entrando nos meus espaços mais sombrios, nos meus cantinhos mais ocultos. Em pouco tempo, me vi em seus braços, enquanto Ele me fazia dormir. Aninhada no colo do homem que era também Leão e Cordeiro, sentia que os monstros de quem eu tinha medo calavam-se.
Ainda é noite. Ainda está frio. Mas Ele ainda está aqui. Eu achava que Ele nunca mais me olharia da mesma forma depois de adentrar os muros que eu tanto protegia. Contudo, Ele ainda diz que me ama com amor insuperável e insubstituível. Ele prometeu que nunca iria embora. Eu nem sempre acredito nisso. Ainda ouço os monstros gritarem, sinto o frio entrar pela janela. A diferença é que agora, sempre que eu começo a entrar em pânico, sinto os dedos dEle alisarem meus cabelos e seus lábios fazerem “shhhhh!”. E um silêncio aconchegante toma conta de mim, enquanto o vento gelado que me paralisava vai aos poucos derretendo.

8 comentários:

Isaque Doi disse...

Muito bom Doroth! Deus te abençoe!

Anônimo disse...

Lindo demais Doth! Saudades!
Lucas

Miriam disse...

Lindo filha, encontrar co Jesus é tudo. Só Ele alivia meu cansaço...beijão te amo. Miriam

Ágata Larsen disse...

Vejo uma grande profundidade naquilo que escreveste...Deus te abençoe

Muri disse...

Olá, Doth.
Que texto delicado e profundo.
E que felicidade ler um texto seu novo aqui.

Beijos

Anônimo disse...

Saudades de te ler.
Que você O sinta bem perto todos os dias.

Ana.

Selma Simoes disse...

Profundo e sensível!

José María Souza Costa disse...

Olá.
Li o teu blogue e estou lhe deixando um...
CONVITE
Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
Eu também tenho um, só que muito simples.
Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
Para mim, o que vai interessar é o nosso intercâmbio de idéias, e, de pensamentos.
Estou lá, no meu Espaço Simplório, esperando por você.
E, eu, já estou Seguindo o seu blog.
Força, Paz, Amizade e Alegria
Para você, um abraço do Brasil.
www.josemariacosta.com