quarta-feira, 7 de maio de 2014

do porquê os amores feinhos são mais desejáveis do que os de cinema

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,não teologa mais.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
Adélia Prado 
Fiquei pensando em quanto tempo a gente perde querendo um amor daqueles de cinema. Um amor belíssimo, com cavalos brancos, fogos de artifício e vestido de baile. Hollywood que me perdoe, mas creio que o amor que mais se aproxima daquele que é descrito na Bíblia é o que a Adélia Prado chama de “amor feinho”. É o que não se enche de idealizações, mas de realidade, que não tem ilusão, mas esperança. Não perde tempo com expectativas individuais, todavia, cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é.
Não raro, vejo amigas cristãs perdidas em expectativas ultrarromânticas, frustradas com seu estado atual e espremendo a realidade em um movimento cansativo e egoísta para atender aos seus próprios desejos. Ainda é forte entre nós a ideia de que a função do amor é satisfazer nossas expectativas e realizar os nossos sonhos!
Observando cristãs mais maduras, percebo que o amor real nasce de um coração que encontrou o centro de sua realização fora de si mesmo. É esse o amor que oferece a verdadeira companhia, palavra que deriva do latim vulgar companìa, formada de cum "com" + panis "pão" : o amor que compartilha o Pão, que calou as próprias exigências e aprendeu a alegria de oferecer a si mesmo.
Esse é um exercício constante e diário: o de não deixar que o amor que há em nós se contamine por interesse próprio ou por uma fé corrompida. É uma revelação essencial para aquelas que buscam ser como a mulher que merece admiração, descrita em Provérbios 31. Em um mundo sexualizado e estético, nada mais subversivo e necessário do que aprender a cultivar a beleza do coração, que se traduz em um espírito manso e gentil, aberto a ouvir, a curar e a abençoar.
O amor que nasce em um coração egoísta é incompleto e inflexível. Impressiona, mas não descansa. O amor que verdadeiramente realizará seus sonhos é beleza transcendente. Tomando emprestado o verso de Adélia Prado, o amor feinho nunca fica velho. É do coração que está disposto a oferecer-se que nasce o amor que é cheio de gentileza, de bom senso, de misericórdia e é pra lá de abençoado. Não muda com o tempo instável e não tem duas caras.
E só enquanto estamos dispostas a experimentar dessa dimensão do amor que transborda na vida de todos ao redor (1 Tes. 3:11) é que ganhamos a disciplina e força de caráter necessária para sermos mulheres, esposas e mães segundo o que Deus planejou.

Já foi dito que quem tem posto a mão no arado não olha mais para trás, do contrário, mantém os olhos fitos em Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé. Meu desejo é que você, querida leitora, aprenda a fixar seus olhos, coração e expectativas naquele que é a maior fonte de Amor do universo. Desta forma, a natureza outrocêntrica do amor se revelará a você em uma aventura deliciosa que também é um aprendizado instigante. E enquanto outras meninas dizem que querem um amor de cinema, você vai poder sorrir e dizer que quer mesmo um amor feinho.

3 comentários:

Isaque disse...

Muito bom! Praticar o "amor feinho" exige um cuidado constante com o mar de emoções que brota do coração! Que Deus sempre nos ajude a perseverar no que é eterno. Beijo :)

Murielle disse...

Esse texto "fresquinho", recém escrito revela uma Doth mais madura nas questões do amor.
Certamente porque hoje pode discursar sobre o tema com propriedade, já que está "in love" hehe
Querida, é sempre um prazer "te ler" através dos seus belos textos.
Um beijo grande!
Estou feliz com esse novo texto! A espera valeu muito a pena!

Ana Tânia Matos disse...

Uau! Estou aprendendo a ver e ter esse amor "outrocentrico" e aqui foi mais um degrau que prossegui...
Gosto muito do que o Lewis diz, que tem muito a ver com o que vc escreveu:
“Apaixonar-se é um fato de tal natureza que temos razão em rejeitar como intolerável a ideia de que deva ser transitório. Ele transpõe com um único salto o espesso muro de nossa individualidade; torna até mesmo o apetite altruísta; põe de lado, como trivialidade, nossa felicidade pessoal; e planta interesses de outra pessoa no centro de nosso ser. Espontaneamente e sem esforço, nós cumprimos (para uma pessoa) a lei que nos manda amar nosso próximo como a nós mesmos. É uma imagem, uma amostra do que poderemos ser para todos se o Amor Absoluto reinar em nós sem rivais. É até mesmo (quando bem usado) uma preparação para isso.”
(LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 158)

Beijo