quarta-feira, 6 de agosto de 2014

encontrando beleza longe dos espelhos



Ainda lembro bem da surpresa de descobrir que o que eu achava bonito não era bonito para todo mundo. Eu tinha entre cinco e seis anos e brincava no girador de assentos coloridos do parquinho da escola - hoje, pouco menos de quinze anos depois, a mera imaginação de um girador já é suficiente para me provocar naúseas. Junto a algumas coleguinhas, discutia qual assento do brinquedo deveríamos ocupar, tendo as suas cores como nosso critério de escolha. Certa de que o assento laranja era o mais bonito e a opção mais sábia, fiquei estarrecida ao notar que as minhas amigas discordavam, pensando que os assentos azuis, verdes ou vermelhos eram melhores! Meu rosto ficou vermelho de raiva e indignação! Como elas não percebiam que o laranja era mais bonito? A discussão foi ficando cada vez mais acalorada e uma intervenção adulta foi necessária. Com uma paciência admirável, a professora explicou ao grupo de garotinhas indignadas que o que era bonito para uma, poderia não ser para outra. "Gosto não se discute, se respeita", disse a professora para o grupo que a observava boquiaberto.

Hoje sei que o conselho da professora foi uma das premissas mais sábias que já ouvi na vida. Conforme eu fui crescendo e amadurecendo minhas opiniões, meu ponto de vista e minha visão de mundo, fui notando que o conselho da professora da pré-escola foi um dos mais sábios que já recebi. Percebo em muitos contextos, embora adultas, as pessoas comportam-se como um grupo de crianças mimadas discutindo.
Narciso só acha bonito o que é espelho, já diz o ditado popular. O homem que apaixonou-se pelo próprio reflexo continua deixando marcas na forma de as pessoas se relacionarem na modernidade com mais força do que nunca. O trágico fim do herói auto-admirador não é suficiente para acabar com a tendência humana de considerar suas próprias ideias como superiores.
Tanto no contexto da fé cristã quanto em outros espaços, tenho visto que as pessoas estão cada vez mais fortes, mais seguras, mais completas e irredutíveis. A cada momento surgem mais verdades absolutas que são defendidas por unhas e dentes por seus “donos”. E nesse frenesi absurdo por garantir o status de verdade absoluta às nossas próprias ideias, a gente perde a graça e a leveza de achar beleza no outro, no diferente, no que é estranho a nós.


Aos amigos e leitores: a alteridade é mais do que uma palavra latina que define o estado e a qualidade do que é diferente. Ela traduz a concepção de que eu só existo em conjunto com o outro, o que na minha opinião é uma das mais belas verdades. Para que eu possa existir, é essencial que eu compreenda o outro em suas particularidades, tendo sempre em mente que é a nossa diferença que garante a nossa realização enquanto sujeitos. Viver e pensar de forma que haja espaço para a alteridade é um desafio que vale a pena!


Aos amigos e irmãos de fé: é em Cristo que todas as coisas nos céus, na terra e embaixo da terra encontram seu propósito e seu significado (Colossenses 1:15-18). Em uma das minhas epístolas preferidas, o apóstolo Paulo diz que somos um exemplo do que a natureza reconciliadora da obra de sua obra foi capaz de fazer: Cristo nos trouxe para o lado de Deus e acertou a vida de vocês, deixando-a íntegra e santa em sua presença (Cl 1:21-23). Um pouco mais adiante, o apóstolo alerta a todos os seus leitores a permanecerem atentos, resistindo à tendência de superdimensionarem questões que embora travestidas de santidade e sabedoria, desviam nossos olhos da Verdade de Cristo. A centralidade da obra da cruz no nosso cotidiano garante a certeza de que as listas de regras não são mais úteis e é entre os braços do nosso Senhor que encontramos as verdades que procuramos. Pois bem, penso que destruir o poder do pecado e oferecer a possibilidade de reconciliação direta com Cristo é um presente maravilhoso demais para desperdiçar perdendo tempo com discussões vãs e regras tolas, não?

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